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Terça-feira, 20/9/2011
11/9: o chão onde os pés tocaram não existe mais
Wellington Machado

+ de 3100 Acessos

1999, dois anos antes.
Ele atravessou a rua com a mão seca e fria, olhou para cima forçando ao máximo a elasticidade de seu pescoço aquecido por um cachecol xadrez: era a única maneira de enxergar o topo da Torre Sul. Entrou no imenso saguão do prédio, foi até a bilheteria, pagou 12 dólares para subir até o topo e tomou o elevador, que era maior do que seu quarto. À medida que ia subindo, seu ouvido sofria uma pressão tal qual o de um mergulhador. Subiu um terço do edifício, desceu, tomou outro elevador, desceu, e mais um outro até chegar ao 107º andar (era assim que funcionava o sistema de elevadores do edifício).

Percorreu os quatro lados do Top of the world, como era chamado o mirante da Torre Sul, de onde se podia avistar o Central Park, o Brooklyn, Nova Jersey e, obviamente, a Torre Norte. Foi a primeira vez que ele viu um helicóptero de cima, voando sobre os edifícios "nanicos". Havia por toda a extensão do andar uma espécie de cadeira rente ao chão, com um declive para colocar os pés, onde ele podia encostar a cabeça no vidro e apreciar os minúsculos carros lá embaixo. A sensação que se tinha era a de poder colocar a cabeça do lado de fora do prédio, a 541 metros de altura.

Apesar de toda a segurança e do vidro espesso, ele, tenso, segurou firme com a mão suada o cano que dividia as cadeiras. Tinha a consciência de que sofria de vertigem, mas sentia uma certa atração - na verdade uma curiosidade - pela alturas. Atração esta que o levou a subir pela escada rolante e chegar ao topo da Torre Sul, sentir o vento, pisar o chão mais alto da cidade. Notou que havia uma forte proteção para que as pessoas não se aproximassem da beirada, inclusive com cerca eletrificada, a fim de evitar suicídios - era praticamente impossível isso acontecer dali.

O que mais o impressionou não foi a vista da cidade, mas a proximidade com a "torre irmã" ali ao lado. Como se não bastasse a altura vertiginosa, a Torre Norte sustentava ainda uma monumental antena com uma luz vermelha na ponta. Não pôde acreditar como o francês Philippe Petit fez o trajeto de uma torre a outra, caminhando sobre um cabo de aço em 1974, ano da inauguração do World Trade Center.

A façanha de Petit foi brilhantemente retratada no documentário O equilibrista (2008), que mescla uma dramatização recente com imagens da época, e mostra como toda a operação fora planejada: o treinamento realizado meses antes, os dribles na segurança, a colocação do equipamento. O francês realizou a travessia com relativa facilidade, apesar do vento forte. Via prazer naquilo e fez até uma troça com os policiais que o aguardavam do outro lado para prendê-lo. Petit foi e voltou várias vezes; e se deu ao luxo até de deitar no cabo de aço.

Segurando o cachecol xadrez, que insistia em se lançar lá de cima com a força do vento, ele se imaginou no lugar do equilibrista. Só de pensar por alguns segundos nessa possibilidade, sua respiração ficou ofegante e sua mão transpirou ainda mais. O chão em que pisava era mais seguro naquele momento do que uma rocha mineral lá embaixo. Como seria desabar lá de cima? Quanto tempo levaria para chegar ao chão? O que passaria pela sua mente nos eternos segundos de uma queda livre? Naquela noite ele sonharia com a queda.

Ele não podia imaginar que a foto de Richard Drew (um homem despencando de uma das torres) sintetizaria, dali a alguns anos, o ataque às torres - ou o dia em que o homem perdeu o chão. Mas haveria uma outra queda emblemática, ignorada pela imprensa: a de um outro homem que, para não ter noção da altura e da proximidade da morte, amarrou uma camisa branca na cabeça e pulou. Mas, como se seu drama ainda fosse pouco, o vento arrancou-lhe a camisa e ele viu o solo duro se aproximar cada vez mais.

Em Homem em queda, o escritor americano Don DeLillo faz um retrato da vida em Nova York após aquela foto. O homem em questão é um performer, que faz exibições em vários pontos da cidade, protegido por um cinto de segurança que o ampara nos saltos. Ele representa a paranoia, a memória renitente de uma cidade perdida, ainda grogue e incrédula no que ocorrera. O medo e a insegurança são retratados nas figuras de três crianças que se reúnem diariamente em um aparamento, no Edifício Godzilla, para olharem pasmadas para o céu. Elas temem a chegada de novos aviões, enviados por um tal "Bill Lawton".

Keith, o pai de uma das crianças, representa a desorientação pós-ataque. Divorciado de Lianne, ao invés de ir para casa naquele 11/9, ele segue inadvertidamente para o apartamento dela, onde chega todo esfarrapado e empoeirado. Os dois acabam se reconciliando na tentativa de superarem o trauma juntos.

Pessoas andando rapidamente, assustando-se com um simples estouro de uma bexiga nas ruas e desconfiando de qualquer envelope solto na calçada. Pessoas carregando máscaras nas bolsas. Muitas perderam a memória, outras não superaram a perda do filho. Além do trauma psicológico, Nova York perdeu o status de capital mundial da arte e abrigo de artistas de vanguarda - Berlim seria o novo destino. Woody Allen foi filmar na Europa. Nada desse cenário ele poderia imaginar do alto da Torre Sul, com o seu cachecol xadrez esvoaçante.

Ele tomou o elevador, que era maior do que seu quarto, para descer o primeiro terço da torre. Talvez tivesse passado pelo personagem da foto de Richard Drew, possivelmente um trabalhador de algum escritório da torre. Tomou o outro elevador para descer o segundo terço. Poderia igualmente ter se encontrado com o homem que cobriria a cabeça com a camisa para saltar, dali a alguns anos, sendo "punido" pelo vento que lhe arrancaria a "máscara". Depois ele desceu a terceira parte da torre, quem sabe com algum futuro sobrevivente do atentado.

A porta do elevador se abriu para o imenso saguão da Torre Sul em 1999 (dois anos antes), onde havia uma fila de pessoas para comprar o ingresso para o topo a 12 dólares. Havia várias câmeras pelos cantos e inúmeros seguranças obesos de uniforme azul marinho. Podia-se ver os raios do sol pelas frestas envidraçadas. Caminhei até uma outra saída que dava acesso ao vão entre as duas torres: um grande pátio com belos jardins.

Calculei o exato ponto em que poderia, esticando o pescoço ao máximo, até a nuca tocar as costas, avistar o cume das duas torres. Minha mão estava seca e fria. Tentei imaginar o maluco do equilibrista caminhando de uma ponta a outra no cabo de aço. Não havia sob meus pés nenhuma camada espessa de pó - nem na minha roupa. Não havia milhares de papéis (currículos, promissórias, cheques, memorandos) sendo levados pelo vento. Não havia fogo, fumaça tóxica nos meus pulmões ou sirenes nas ruas. Talvez eu estivesse pisando exatamente no local onde o "homem em queda" se espatifaria. Ou onde cairia o homem-da-camisa-arrancada-pelo-impiedoso-vento.

O que se via naquele imenso vão eram pessoas carregando sacolas. Executivos apressados, jovens comendo sanduíche ou ouvindo música. Don DeLillo não imaginava ainda seu próprio performer, Woody Allen rascunhava seu próximo filme na cidade, os museus estavam cheios e as bexigas não assustavam ninguém. Não havia máscaras nem estilhaços de vidro. Em 1999, dois anos antes, eu não tinha ideia de quem seria "Bill Lawton". Ajeitei meu cachecol xadrez e saí andando pelas ruas, com a mão seca e fria.

Para ir além:





Wellington Machado
Belo Horizonte, 20/9/2011


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