Um livrinho, um poetinha | Andréa Trompczynski | Digestivo Cultural

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Segunda-feira, 28/2/2005
Um livrinho, um poetinha
Andréa Trompczynski

+ de 3800 Acessos
+ 4 Comentário(s)

Quando pus os olhos a primeira vez em Garoto de Ipanema, de Alex Solnik, pensei: "que livrinho...", da mesma maneira que pensava, anos atrás, ter sido Vinícius de Moraes somente "um poetinha". É uma regra: nas primeiras vezes que se lê Vinícius de Moraes, geralmente durante um grande amor aos dezesseis ou dezessete anos, ele é perfeito. Depois, alguém vai certamente dizer que ele é doce demais, amigo demais, poeta demais. Virá a época de desgostos, Augusto dos Anjos ou Arthur Rimbaud, sucedido de um longo tempo sem ler poesia, com a única explicação de que dói. Um dia pode-se voltar a ela, que os cortes já estão costurados com linha forte e muitos são apenas cicatrizes. Reler Vinícius aos trinta anos é diferente, ele assume proporções não vistas antes e umas palavras que pareciam singelas tomam todo significado. Ao ler sobre o Vinícius, impreterivelmente se pensa: "amei pouco".

São entrevistas ou depoimentos de Portinari, Jorginho Guinle, Oscar Niemeyer, Haroldo Costa (o eterno Orfeu), Lan, Ferreira Gullar, Miúcha, Sérgio Cabral, Zélia Gattai, Carlos Lyra, Nana Caymmi, Wimer Bottura, Toquinho, Gilda Mattoso e Christina Gurjão (as duas últimas ex-esposas do poeta) e uma carta-testamento de próprio punho.

Vinícius carregava a alma boa debaixo do braço. Era um retrato, óleo sobre madeira, pintado por Portinari e que entrava e saía das casas das esposas que passavam a ser ex-esposas, como num pacto de fidelidade a ele mesmo e ao sentimento original de estar apaixonado, não o de amor morno, mas aquele enlouquecido dos tais dezesseis ou dezessete anos. "Vire essa folha do livro e se esqueça de mim.../ Finja que o amor acabou e se esqueça de mim..." Dizia-se que saía dos relacionamentos amorosos com a escova-de-dentes, o pijama e o Portinari.

Foi jornalista, censor do DIP, secretário da embaixada brasileira em Paris. Jorginho Guinle o acompanhava nas visitas aos estúdios da Metro para assistirem às filmagens: "Vinícius era muito bem cotado, não pela importância da posição dele, mas por ele mesmo". Compartilhavam com Orson Welles a mesma adoração pelo cinema e o jazz e frequentavam o café society com Marlene Dietrich e Heddy Lammar, num lugar em que ninguém sabia onde era o Brasil e confundiam-no com a Argentina.

Detestava os aborrecimentos com direitos autorais. Era autor ou co-autor de mais de quatrocentas músicas e sabia o que isso representava. "Garota de Ipanema" havia sido gravada por Sinatra, Ella Fitzgerald e em todas as versões possíveis. Mesmo assim, Vinícius não morreu rico, sentia uma "imensa preguiça só em pensar" em contratar um advogado. Das frustrações que teve uma foi sua loucura por encontrar um despacho em que Costa e Silva dizia para Magalhães Pinto: "Afasta esse vagabundo". Garantia que se o achasse colocaria num quadro na sala, mas nunca o encontrou. Ciumento tanto das mulheres quanto dos parceiros, uma vez acordou muito zangado com Toquinho, que estava morando por uns tempos na mesma casa com Vinícius e Gesse, respondia com monossílabos e uma carranca. Toquinho, preocupado em ter dito ou feito algo que o desagradou, perguntou o que estava acontecendo: "Vou te falar a verdade: estou muito puto com você. Eu sonhei que você tinha me traído com minha mulher. Estou pensando até agora o que é que eu faria com você". Casou nove vezes, apesar de dizer que casaria de fato somente com Sérgio Cabral -declaração que rendeu uma ilustração de Jaguar no Pasquim, com Sérgio vestido de noiva- e não se cansava de procurar o "verdadeiro amor", carregando sempre o Portinari.

"Peguem meu corpo, joguem-no ao mar, lá na Avenida Niemeyer, com dois pesos nos pés. Adoraria ser comida de peixe. (...) Mas não me enterrem, pelo amor que vocês têm a mim". Morreu na banheira, lugar predileto onde recebia os amigos e compunha, com Toquinho segurando sua mão. Pediu para ser enterrado ao som de Pixinguinha. E que houvesse nenhuma tristeza: "fiz o que pude".

Obviedades
Uma professora de literatura brasileira certa vez me disse: "Vinícius é óbvio demais". Há uma arte na obviedade dele, em cantar a beleza, o amor, a amizade e a pátria, que somente ele domina. Cantar a pátria, tomamos por ufanismo nem um pouco inteligente, não se pode mais escrever sobre amor daquela maneira. Essa liberdade foi permitida para um poeta que se desvinculou do intelectualismo que ri do Brasil. Não é mais permitido amar o país, citamos cientistas políticos e somos engraçadinhos como Miguel Falabella no teatro, num besteirol de escritores irônicos e poesia concreta escatológica. Eu, que tenho esta alma velha incapaz de se adaptar ao pensamento jovem de hoje, desejaria alguma vez escrever que queria uma banheira e um amigo segurando minha mão na morte. Escrever que aqui é minha patriazinha e estive sofrendo de saudades dela quando estive longe. Talvez sobre a busca sem fim do amor verdadeiro da adolescência que Vinícius procurou em nove casamentos. Mas não posso, não podemos. Não soa bem, é ingênuo e o mundo nos engolirá por isso.

Aí está a outra regra: tais sentimentos e declarações só são permitidos a poetinhas óbvios.

"(...)

Vontade de beijar os olhos de minha pátria
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos...
Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias pátria minha
Tão pobrinha!

(...)

Não te direi o nome, pátria minha
Teu nome é pátria amada, é patriazinha
Não rima com mãe gentil
Vives em mim como uma filha, que és
Uma ilha de ternura: a Ilha
Brasil, talvez.

(...)

Agora chamarei a amiga cotovia
E pedirei que peça ao rouxinol do dia
Que peça ao sabiá
Para levar-te presto este avigrama:
"Pátria minha, saudades de quem te ama..."

Outro crime sem perdão do Presidente
O personal stylist de Lula deve estar em férias. Muito mais grave que a declaração que o presidente fez dia 24, de que estava ciente de corrupção em processos de privatização e calou, foi aquela camisa empapada de suor. Impeachment, por favor, para presidentes vestindo camisas empapadas de suor.
Um amigo diz-me que foi proposital, para dar uns ares de quem está trabalhando.

Clube da Terceira Idade
Não pode-se mais conversar com pessoas com menos de sessenta anos -precisam ir já, precisam desligar o telefone, estão atolados de trabalho. Rapidamente citam títulos, nomes e livros e saem correndo. Somente agora pude entender o antigo conselho "ouça os mais velhos": eles já sabem. Pacientes, olham os jovens como um menino que pisa num formigueiro e ri da agitação inútil das formigas. Pedirei o documento de identidade antes de iniciar qualquer conversa, que desta arte pessoas jovens não entendem -nem sequer sentam-se! Há duas ou três exceções que andam por aí em corpos trocados e parecem ter uns trinta anos, mas são velhos, bem velhinhos. E nós, do Clube da Terceira Idade, olhamos preguiçosos para o mundo por cima dos óculos, sem nem pensar em correr -faz mal aos joelhos.

Numa capela do interior
Casamento numa igreja do interior, era a filha mais velha de Dona Filomena. Queria casar-se antes da mais nova mas foi impedida pelo pai, que faz questão de seguir a ordem das idades, como os seus pais e seus avós fizeram. Na missa, enquanto o padre falava que a vida é sacrifício pelo outro e que seremos recompensados no reino dos céus, meu peito apertava pensando em Nietzsche. Fugimos da dor nas consolações cegas do cristianismo, nesses deuses que não dançam, tristes e sangrados. Olhava a imagem de uma santa sofrida que pisa numa cobra, e sentia medo daqueles anjos de olhos azuis sobrevoando um Cristo recussitado que resplandecia, "merda essa mentira toda do livre-arbítrio". Pensei sair um pouco lá fora e fugir daquele cenário de horror, mas Dona Filomena segurou meu braço: "A filha está tão feliz porque você veio", insistem em me querer bem e esses amores aprisionam-me dentro da vida, das igrejas, das casas.

Depois, na festa ela me segredou que pra essas coisas de infelicidade o único remédio é fazer uma horta.

Para ir além






Andréa Trompczynski
São Mateus do Sul, 28/2/2005


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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
1/3/2005
14h43min
Amei pouco, ou bebi pouco...
[Leia outros Comentários de Ram]
1/3/2005
16h46min
Que bom ler esse artigo. Vinícius representa muito daquilo que a gente sonhava que era o Brasil (ou que podia ser) e que não sonha mais. Ou, pelo menos, não deixamos que alguém pense que continuamos sonhando.
[Leia outros Comentários de Antonio Montenegro]
1/3/2005
17h00min
Andréa, são demais os perigos desta vida para quem tem paixão. Óbvio demais. Bom demais. Só os poetinhas têm o direito de ser óbvios. E assim o é. Vinícius me livra do cinismo e me transporta a um mundo que não existe mais, ou que talvez jamais tenha existido, a não ser para uns poucos. Ah, hoje estou tão triste, que deveria sair do trabalho, chegar em casa e ler Vinícius (ou Artaud, só pra chegar noutro extremo?) até o fim dos tempos. Bom, como não estou assim tão espirituoso, devo pegar minha viola, enfiar no saco e partir! Beijão!
[Leia outros Comentários de Alessandro de Paula]
9/3/2005
18h41min
Grande Vinícius! Já pensou o que é escrever, fazer falarem, por si só, palavras tão simples! Transformar banalidades em "espetacularidades"? Quem dera ser assim. Ao menos posso apreciá-lo!
[Leia outros Comentários de Rosa Nina]
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