É, não ser vil, que pena | Guga Schultze | Digestivo Cultural

busca | avançada
63898 visitas/dia
2,0 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Documentário inédito sobre Luis Fernando Verissimo estreia em 2 de maio nos cinemas
>>> 3ª Bienal Black abre dia 27 de Abril no Espaço Cultural Correios em Niterói (RJ)
>>> XV Festival de Cinema da Fronteira divulga programação
>>> Yassir Chediak no Sesc Carmo
>>> O CIEE lança a página Minha história com o CIEE
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> O Big Brother e a legião de Trumans
>>> Garganta profunda_Dusty Springfield
>>> Susan Sontag em carne e osso
>>> Todas as artes: Jardel Dias Cavalcanti
>>> Soco no saco
>>> Xingando semáforos inocentes
>>> Os autômatos de Agnaldo Pinho
>>> Esporte de risco
>>> Tito Leite atravessa o deserto com poesia
>>> Sim, Thomas Bernhard
Colunistas
Últimos Posts
>>> Glenn Greenwald sobre a censura no Brasil de hoje
>>> Fernando Schüler sobre o crime de opinião
>>> Folha:'Censura promovida por Moraes tem de acabar'
>>> Pondé sobre o crime de opinião no Brasil de hoje
>>> Uma nova forma de Macarthismo?
>>> Metallica homenageando Elton John
>>> Fernando Schüler sobre a liberdade de expressão
>>> Confissões de uma jovem leitora
>>> Ray Kurzweil sobre a singularidade (2024)
>>> O robô da Figure e da OpenAI
Últimos Posts
>>> AUSÊNCIA
>>> Mestres do ar, a esperança nos céus da II Guerra
>>> O Mal necessário
>>> Guerra. Estupidez e desvario.
>>> Calourada
>>> Apagão
>>> Napoleão, de Ridley de Scott: nem todo poder basta
>>> Sem noção
>>> Ícaro e Satã
>>> Ser ou parecer
Blogueiros
Mais Recentes
>>> O Conselheiro também come (e bebe)
>>> Diploma ou não diploma... não é esta a questão
>>> Minha casa, sua casa
>>> Linger by IMY2
>>> A hora certa para ser mãe
>>> Cenas de abril
>>> Por que 1984 não foi como 1984
>>> A dicotomia do pop erudito português
>>> Coisas nossas
>>> Caso Richthofen: uma história de amor
Mais Recentes
>>> 1000 Lugares Para Conhecer Antes De Morrer de Patricia Schultz pela Sextante (2006)
>>> De Onde Vêm As Palavras; Frases E Curiosidades Da Língua Portuguesa de Deonísio Da Silva pela Mandarim, São Paulo (1997)
>>> Philosophia de João Braz - Ironias, zangas e desdens de um sujeito que tem visto mundo 1892-1895 de Silva Pinto pela Antonio maria pereira (1895)
>>> Livro Conexões. Superinteressante de De Freud ao Android e outras pela Abril (2016)
>>> Reminiscencias de Viagens de um Medico de Henrique Guedes de Mello pela Jornal do Commercio (1934)
>>> O Mysterio da Estrada de Cintra de Ramalho ortigão e Eça de Queiroz pela Domingos dos Santos (1878)
>>> Password English Dictionary For Speakers Of Portuguese de Martins Fontes pela Luso Brazilian Books (2001)
>>> Copywriting. Palavras Que Vendem Milhões de Gustavo Ferreira pela Dvs (2018)
>>> Gramática Prática Da Língua Inglesa: O Inglês Descomplicado de Nelson Torres pela Saraiva (2000)
>>> Arte De Amar Ars Amatoria Texto Bilingue Ovidio de Ovidio pela Fisicalbook (1992)
>>> O grande comandante de João Alcides do Nascimento pela Ministerio da cultura (2004)
>>> Casa-Grande & Senzala - 2º tomo - formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal de Gilberto Freire pela Cepe (1970)
>>> Ninaua de Juarez Nogueira pela Gulliver (2016)
>>> Espelho de Portuguezes de Alberto Pimentel pela Antonio Maria pereira (1901)
>>> Jardim Secreto, O - Colecao Reencontro Infantil de Frances Hodgson Burnett pela Scipione (paradidaticos) (2012)
>>> Direito Desportivo Debate e Crítica de Wladimir Camargos (org.) pela Ufg (2015)
>>> A Revolução Burguesa no Brasil de Florestan Fernandes pela Zahar (1976)
>>> Aléxandros: Os Confins Do Mundo de Valerio Massimo Manfredi pela Rocco (2000)
>>> Moisés I: O Vidente Do Sinai: Volume 1 de Josefa Rosalia Luque Alvarez pela Pensamento (1996)
>>> Noções de História da Educação. de Afranio Peixoto pela Bpb (1933)
>>> Homo Deus de Yuval Noah Harari pela Companhia Das Letras (2016)
>>> O Deus Selvagem de A. Alvarez pela Companhia Das Letras (1999)
>>> A Viúva de Fiona Barton pela Intrinseca (2017)
>>> Qualidade Na Pratica Mediúnica de Manoel Philomeno De Miranda pela Fisicalbook (2000)
>>> A Origem Trágica Da Lei de Wilson Madeira Filho pela Autografia
COLUNAS

Quarta-feira, 13/2/2008
É, não ser vil, que pena
Guga Schultze
+ de 4700 Acessos
+ 4 Comentário(s)

A face risonha do Mal sempre me intrigou. Os vilões estão sempre sorrindo, especialmente nos filmes "b", nas histórias em quadrinhos e em toda velha pulp fiction. A julgar pelo prazer que aparentam sentir ou pelo puro divertimento que extraem de suas maldades, de seu pacto com as sombras, eles são, sem sombra de dúvida, os seres mais felizes sobre a terra.

Muitas e muitas vezes eles gargalham, cheios de uma infinita delícia interior, e o fato de parecerem sinistros quando fazem isso se deve mais à debilidade de suas vítimas do que a qualquer outra coisa.

A gargalhada de um super vilão, de uma imperatriz malvada ou a de monstros infernais é algo estarrecedor. Se sobrepõe a qualquer tentativa de confronto verbal. Ninguém pergunta a eles por que estão rindo. Todo mundo sabe que estão rindo para si mesmos, embevecidos pelo poder que exercem sobre as vítimas babacas que, evidentemente, não têm nenhuma capacidade de perceber aquele humor contagiante.

O mocinho, por exemplo, costuma rir do seu atrapalhado ajudante que não consegue montar num cavalo direito, que escorrega numa casca de banana ou tem problemas em tirar café de uma cafeteira rebelde do escritório. Mas não acha a menor graça quando está amarrado, pendurado de cabeça pra baixo, prestes a cair num poço de lava fumegante. É a vez do vilão rir como um desmiolado, antes de abandonar o mocinho à própria sorte.

O vilão se retira, provavelmente para dar tempo ao herói, para que este capte o humor da situação, coisa que ele, herói, nunca faz. Fica lá, tentando desesperadamente se libertar e quase sempre consegue (senão a história acaba), mas não acha graça nenhuma.

Ainda que um realismo atravessado tenha se infiltrado até em filmes de puro entretenimento e esses chavões de "sessão da tarde" tenham sido hoje, em grande parte, abandonados em prol de uma crueza narrativa digna de um Tarantino, o Mal mantém seu sorriso irônico na face de seus agentes, espalhados como uma campanha de propaganda maciça pelos cinemas afora. Todo mundo sabe que o capeta é um sujeito risonho, ainda que muitas vezes possa ser desagradável. Mas, definitivamente, risonho.

Tirando a auto-estima, o Mal ri de que, afinal de contas? Antes de mais nada, me parece que ri daqueles que consideram o maniqueísmo apenas uma infantilidade filosófica.

Ok, é uma infantilidade filosófica. Mas vamos devagar. Ou divagar um pouco, melhor dizendo. O maniqueísmo pode ser considerado como uma tentativa desastrada de separar o joio do trigo, digamos assim. (Jóia, digo eu. Nem sei direito o que é joio. Nunca vi um joio. Mas acredito que seja tudo que não for o grão de trigo, no processo de extrair esse grão, certo?)

Mas é a tentativa maniqueísta de identificar o Bem e o Mal que parece meio ridícula, no final das contas. Não o conceito em si, que lida com esses dois elementos, duas entidades psíquicas, sei lá, que foram intuídas e vivenciadas longamente durante toda a existência humana, desde quando um macaco sacana empurrou seu irmãozinho do alto do galho para ficar com todas as frutas. Ou desde quando um outro macaco ajudou seu irmãozinho a subir na árvore, a salvo do ainda mais sacana tigre dentes-de-sabre. E pode ter sido o mesmo macaco vacilão quem perpetrou as duas ações, a de salvamento e a de sacaneamento (sic) do seu semelhante.

O que o maniqueísmo traz como verdade, apesar da sua incipiente capacidade de lidar com essa verdade, é que os dois elementos, Bem e Mal, são antitéticos, antagônicos, incompatíveis e não complementares. Mesmo que o macaco seja o mesmo.

Não importa que sujeitos como Richard Dawkins se desfaçam da questão mística do confronto e que apontem só a realidade dos genes trabalhando ― muitas vezes em franca desarmonia ― para manter a espécie, o grupo ou o indivíduo e, em última instância, para manter a si mesmo, gene, no pool dos genes que permanecem na ativa, ao longo dos milênios. Importa é que as duas forças, Bem e Mal, têm naturezas distintas. Dawkins provavelmente daria risadas sobre o pretenso misticismo desse contraste, ainda que seus "genes egoístas", como ele gosta de dizer, se apresentem extremamente "maquiavélicos" no sentido comum do termo, ou seja, malvados.

Para agravar a confusão, dificultar ainda mais o discernimento comum, mas difícil, do bom senso, há a questão cristã dos mártires. Aqueles santos. O nível mais alto da bondade humana, segundo a Igreja, está definido nos santos. Muitos foram mártires e, como o nome diz, martirizados das formas mais loucas, da pedrada ao ataque de bestas feras, enterrados vivos ou cozinhados no azeite.

Sem querer discutir o mérito dessa bondade suicida, os santos apresentam, geralmente e junto com essa bondade toda, um alto nível de bobeira. Bons e bobocas. Como já disse, não pretendo desacatar a imagem desses santos homens, mas apenas apontar para a maléfica equação cristã: Puro + Indefeso + Ingênuo = Bom. Uma equação do Mal, diga-se de passagem. Com sua contraparte, também do Mal: Esperto + Agressivo + Inteligente = Mau.

Estamos muito acostumados à essa fórmula, de forma que nos enchemos de uma ternura meio vagabunda por personagens que a gente vê por aí nas telas como, por exemplo, o sábio, despenteado e bondoso astrônomo, um velhinho pateta, que não sabe sequer amarrar seus sapatos direito e se esquece até de comer, observando uma chuva de meteoros. Que vem em sua direção, é claro. Desnecessário lembrar que os sábios bondosos são notoriamente incapazes de correr para salvar a pele. Ou pelo jovem rapaz negro, que tira o capuz que escondia seu rosto e resolve dizer umas verdades, bem no meio da convenção anual da Ku Klux Klan. O cinema está cheio de cenas desse tipo.

Em Dança com Lobos, Kevin Costner faz o soldado da cavalaria americana que é acolhido gentilmente pelos índios e aprende a gostar deles. Durante o longo tempo em que permanece na aldeia dos índios, ele está vestido como soldado da cavalaria. Quando fica sabendo que outros soldados estão acampados num local próximo dali, ele parte para tentar intermediar o conflito iminente e vai, fantasiado de índio dos pés a cabeça, tentar convencer seus antigos companheiros indianófobos que os índios são gente boa. Ou seja, seu crescimento interior como ser humano é claramente acompanhado de um equivalente e progressivo retardamento mental.

Porque também é estranho a gente torcer pelo canibal Hannibal (Anthony Hopkins), por exemplo, no Silêncio dos Inocentes (e nas seqüências inevitáveis). Excetuando-se o pequeno desvio de caráter que faz com que ele goste de morder a cara das pessoas e chupar seus cérebros, o homem é de uma inteligência brilhante, calmo, culto, paciente, confiável, honesto, capaz, generoso e não sei mais o quê.

Na verdade, o que a gente gosta nesses psicopatas brilhantes do cinema é que eles não são indefesos. A gente sente que poderia confiar neles em questões cruciais de vida ou morte, caso eles estivessem do nosso lado. A própria vida não passa de uma questão dessas: uma crucial questão de vida ou morte. Não dá pra confiar em mártires nem em seus métodos, em qualquer momento que seja decisivo. Mártires já vão morrendo logo de saída. Costumam defender, com a própria vida (!), a tese de que os bons são perdedores natos, losers radicais. Morrem à-toa, à-toa.

Quando menino eu ficava pensando, às vezes e com uma certa revolta, como o Super-Homem podia ser tão boboca e mal dar conta do Lex Luthor, um careca temível, que não tinha poder nenhum, apenas uma evidente inteligência superior, sendo, portanto, portador da famosa síndrome do "gênio do mal". Ou no estranho confronto entre a máscara negra do bem, o Batman e a face branca do mal, o Coringa. Eram os mistérios maniqueístas, dolorosos para muitos, gloriosos para outros tantos e gozosos para uns poucos.

Segundo o já citado Richard Dawkins, podemos ter genes, ou cópias genéticas com alguns meros milhões de anos de idade, que comandam até nossa maneira de pensar, mas nenhum desses genes ainda chegou perto de definir os limites entre os dois territórios. Parece que esses milhões de anos são pouco tempo para arriscar uma resposta qualquer à milenar questão do Bem e do Mal. Por enquanto, fico com a opinião do Millôr Fernandes, que disse que "o genial do homem é a bondade". E estamos conversados.


Guga Schultze
Belo Horizonte, 13/2/2008

Quem leu este, também leu esse(s):
01. A situação atual da poesia e seu possível futuro de Luis Dolhnikoff
02. Rodolfo Felipe Neder (1935-2022) de Julio Daio Borges
03. Alma indígena minha de Elisa Andrade Buzzo
04. O artífice do sertão de Celso A. Uequed Pitol
05. O Que Podemos Desejar; ou: 'Hope' de Duanne Ribeiro


Mais Guga Schultze
Mais Acessadas de Guga Schultze em 2008
01. Sobre o som e a fúria - 26/3/2008
02. Dançando com Shiva - 5/3/2008
03. Don Corleone e as mulheres - 24/9/2008
04. Algumas notas dissonantes - 16/1/2008
05. Contra reforma ortográfica - 10/9/2008


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
15/2/2008
00h50min
Guga, sempre vi este maniqueísmo como uma forma de conferir importância ao ordinário. Circunstâncias transformam o bom do predador no mau das feras, na maioria dos casos é uma situação empática. As virtudes do herói são os desejos do homem comum com um pouco menos de coragem. O herói é o alter ego do homem comum confinado na sua realidade monótona e ordinária. O herói é tão chato e previsível que muita gente já percebeu que sua porção verossímil se encontra no vilão. Rir é sobretudo esgarçar a cena até que não haja sentido, provocar o desequilíbrio do razoável. Rir é rir de si, na porção atingida por aquela ruptura da ordem montada, do inusitado, do exagero, tolos que somos... Os vilões como metáfora da própria gênesis ri de nós.
[Leia outros Comentários de Carlos E. F. Oliveir]
15/2/2008
15h34min
Muito bom seu texto, Guga. Interessante pensar por esses ângulos. A despeito de torcermos pelo herói, até, inconscientemente, os vilões sem dúvida são bem mais atraentes. Mas alguns mocinhos nos causam tédio e aversão. Mire-se no exemplo de Robin Willians. Não dá pra engolir. Nem que ele seja a vítima mais sofrida da humanidade, torço contra. Aquela feição constante de sofredor e, ao mesmo tempo, de bonzinho, dá nojo. Parabéns pelo texto. Bj.
[Leia outros Comentários de Adriana Godoy]
22/2/2008
00h33min
Pois é. No fundo, muitos de nós tomam mais decisões da maneira humana e, portanto, nos solidarizamos com o vilão, para mim, muito mais humano que o herói. A bondade é um traço (para mim) criado pela civilização e que vai embora ao primeiro sinal de luta pela sobrevivência, quando o que valerá é a lei do mais forte.
[Leia outros Comentários de eurandi corvello ant]
22/2/2008
10h16min
Nunca me preocupei em conceito de bom ou mau, apenas nas atitudes, insanas ou não. Vejo isso como uma questão de formação de valores. Mas me lembro do que meu pai me dizia: "Você precisa ter malícia."
[Leia outros Comentários de Marcelo Telles]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Memorias de Uma Infamia
Lydia Cacho
Bertrand Brasil
(2012)



Perolas Literarias
Antonio Fernandes Rodrigues
Petit
(1991)



Biologia 1 - Biologia das células
José Msriano Amabis e Gilberto Rodrigues Martho
Moderna - Didaticos
(2009)



Seu Signo Zodiacal e Ascendente
Eliane Lobato
Ediouro
(2023)



O Mito do Governo Gratis
Paulo Rabello de Castro
Janeiro
(2014)



Encontro
Richard Paul Evans
Lua De Papel
(2012)



Sources of English Legal History-private Law to 1750
J. H. Baker
Butterworths
(1986)



Geração Alpha Geografia 7 Ed 2019 - Bncc.
Fernando Dos Santos Sampaiomarlon Clovis Medeiros
Sm
(2019)



John Kennedy por ele mesmo
John Kennedy
Martin Claret
(1992)



A força da esperança
Telma Sobolh
Sociedade beneficente Israelita brasileira Albert Einstein
(2015)





busca | avançada
63898 visitas/dia
2,0 milhão/mês