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Segunda-feira, 25/5/2015
Lendo Virgílio, ou: tentando ler os clássicos
Julio Daio Borges

+ de 5300 Acessos

"O principal conhecimento que se adquire lendo livros é o de que poucos livros merecem ser lidos."
H.L. Mencken

* Para um leitor de verdade, ler é uma grande aventura ― se não for a maior de todas. Você lê, lê, até que, um dia, percebe que não vai ler tudo. Ler o quê, então? As grandes obras. As grandes obras são poucas. E são os grandes desafios de qualquer leitor. Tem gente que gostaria de escalar o Everest. Eu gostaria de ler as grandes obras da literatura. Acredite, é uma grande ambição para um leitor de verdade. Se não for a maior de todas.

* Nesse sentido, quando eu li Homero, achei que havia atingido um "marco" na minha carreira de leitor. Pois, de certo modo, Homero é o começo de tudo. Homero é o "Gênesis". Homero está na fronteira entre a língua escrita e a língua falada. Homero compilou a tradição oral de sua época e deu forma "literária" a ela. Homero é quase a Pré-História que virou História. Ou, naquela piada do Millôr, é "o analfabeto que criou o alfabeto". Homero está na origem da nossa civilização. Homero é o DNA da nossa literatura.

* Mas o desafio das grandes obras ― para nós ― é a tradução. Como a nossa nação é jovem, e a maioria das grandes obras não foi escrita na nossa língua, nosso desafio, também, é o de encontrar uma boa tradução. Legível. Quando terminei de ler Homero, me senti órfão. Não queria abandonar aquele mundo. Mas qual a continuação? Virgílio. OK, Virgílio ― mas em que tradução?

* Eu tive a sorte de frequentar o mesmo Starbucks que um dos nossos maiores helenistas, o professor Antonio Medina Rodrigues. Um dia eu entrei nesse Starbucks com a minha edição da Odisseia ― com o desejo de escrever uma resenha (que nunca escrevi) ― e lá estava o professor com uma edição da... Odisseia! A diferença é que eu havia acabado de ler e ele estava revisando o prefácio de uma edição que seria relançada (e que ele, originalmente, prefaciou...).

* Eu perguntei: "Professor, qual é o maior poeta? Homero, Virgílio, Dante ou Shakespeare? O Harold Bloom diz que é Shakespeare, o senhor concorda?". Ele me respondeu: "Ah, é Homero! O Harold Bloom floreia muito. Aquele negócio de 'angústia da influência'... Aquilo sempre existiu!". Continuei com as minhas indagações: "Professor, o senhor acha que Platão se igualou a Homero, criando a filosofia, uma vez que ele percebeu que não ia conseguir ser tão grande poeta?". E ele: "Acho que sim. Mas Platão falando de Homero é como um economista falando de futebol... É outra coisa!".

* Acho que querendo ler a Ilíada ― que ainda não havia saído na tradução do Frederico Lourenço ― pedi ajuda ao professor: "Qual é a boa tradução da Ilíada, professor?". Ele, sem pestanejar: "Pega a do Odorico Mendes". E eu, titubeante: "Putz, eu tenho, mas achei muito difícil, muitos neologismos, parece Guimarães Rosa". E ele, me corrigindo: "Guimarães Rosa, não! O Odorico fazia o que podia. Insiste mais um pouco... O Odorico é o melhor de todos".

* Tive a sorte de pegar a Ilíada do Frederico Lourenço e lê-la foi uma das grandes emoções ― ou aventuras ― da minha vida de leitor. Mas foi frustrante descobrir que o cavalo de Troia não aparece no principal livro sobre Troia. Ilíada vem de "Ilium", que é outro nome para Troia. A rigor, nem a queda de Troia aparece na "Troiana" (minha adaptação para Ilíada). O poema acaba junto com os funerais de Heitor. E eu pensei: "Cadê o cavalo? Cadê o incêndio? Cadê a Cassandra? Cadê o calcanhar de Aquiles? Onde eu encontro a continuação dessa história?".

* Foi quando eu pensei em Virgílio. E descobrir uma tradução foi outra odisseia. Tanto que no meio ― entre Homero e Virgílio ― eu acabei lendo o Ulisses de Joyce. (Para vocês terem uma ideia de como foi difícil e de como demorou.) Na realidade, eu encontrei uma boa tradução, em francês, prefaciada por ninguém menos que Sainte-Beuve (procurando na internet). É uma edição do começo do século XX, mas não consegui descobrir o tradutor ― nem se foi reeditada. Tenho o PDF e comecei a imprimir. Mas senti que estava "perdendo" alguma coisa...

* Tentei, então, a tradução daquela coleção da Oxford, Loeb Classical Library. Coleção bilíngue, que eu sempre namorei, e que achei que havia chegado a hora de comprar (Virgílio merecia). Acho que li todas as Bucólicas e um pouco das Geórgicas, mas, quando chegou na Eneida propriamente dita, empaquei de novo. Até a edição do Odorico Mendes, que também traduziu a Eneida, eu tentei ― mas, igualmente, não consegui. Meu tio Papi me mandou, da França, a edição da Belles Lettres, de aniversário, mas só consegui mesmo na tradução do Carlos Alberto Nunes, pela editora 34 (sorry, Tio Papi).

* O Carlos Alberto Nunes eu conheci pelas traduções dos Diálogos de Platão, que a editora da Universidade Federal do Pará reedita. Sua tradução do Fédon me impressionou enormemente. Sobretudo a descrição do que acontece com a alma depois que o corpo morre. Que ― talvez, não por acaso ― coincide com a descrição que os espíritas fazem do "processo". Que coincide, também, com a descida de Ulisses à mansão do Hades (na Odisseia). E coincide, ainda, com a visita de Eneias ao reino dos mortos (na Eneida)...

* Virgílio é o principal discípulo de Homero. Ou ― dos que chegaram até nós ― o que chegou mais perto dele. Virgílio é o Homero romano. É talvez o maior poeta depois de Homero. Se é que Homero de fato existiu ― ou se é que foi um "único" Homero. Me disse o professor: "Homero foi quem deu a última mão estilística". Homero é uma força da natureza. Como algo que brota da terra. Virgílio tinha um plano: contar a História de Roma, através de um épico, que fosse tão grande quanto os de Homero...

* A Eneida foi ainda mais ambiciosa, porque fundiu a Odisseia com a Ilíada. Até a metade, é a viagem de Eneias, um dos sobreviventes de Troia, em busca da terra prometida (para usar uma imagem fora de contexto). Quando ele, finalmente, chega à Itália, ou ao Lácio, tem de conquistar a região ― então começa a segunda metade da Eneida, que se inspira na Ilíada. Virgílio demorou pouco mais de uma década para escrever a obra toda. E o mais irônico é que morreu na viagem que fez à Grécia, para conferir alguns locais onde a ação se passa. Doente, pediu que a Eneida, não totalmente revisada, fosse destruída. (Não obedeceram, graças a Deus.)

* A parte da guerra, eu achei muita guerra. (Mais que a Ilíada.) A parte da viagem, da Odisseia, eu gostei mais. Tem até um certo lirismo, belíssimo, que eu adorei ― que é a visita de Eneias a Cartago, governado pela rainha fenícia Dido. Que se apaixona por Eneias, que havia perdido a mulher, Creúsa, ainda em Troia... A paixão da Dido é uma das maiores histórias de amor de toda a literatura. E esse trecho já vale pela Eneida inteira. É como o monólogo da Molly Bloom, no Ulisses, de Joyce, que vale o livro todo. (Aliás, se você for começar o Ulisses, comece de trás para frente...)

* Lendo os romanos, eu não me conformo com a frase de Heidegger que diz que o latim não acrescentou "nada" (que os gregos criaram "tudo"). Acho que ele falava de filosofia. Mas, mesmo assim, acho injusto. Depois que eu li o Dom Quixote, que é talvez o primeiro romance moderno, eu cheguei na Antiguidade graças aos romanos. Não foi graças a Heidegger. Graças à filosofia, talvez. Mas nada a ver com Heidegger.

* Em 1999, na virada do milênio, eu estava lendo um livro sobre Hobbes, de um autor contemporâneo, e ele passava por Cícero. Como eu estava na França, comprei o volume dedicado aos estoicos, da biblioteca da Pléiade. Anos depois ― aproximadamente uma década depois ― me deparei com o volume da Marilena Chauí, pela Companhia das Letras, dedicado a esse período da filosofia, o helenismo. E me encantei. Lembro que no começo de 2011 eu estava lendo Cícero, Sêneca, Marco Aurélio, no volume da Pléiade, e me transportei para outra época...

* Também li Ovídio, a Arte de Amar, na coleção da Penguin Companhia. E, na época em que a Mamãe se foi, eu li as Cartas Pônticas, que é a correspondência do exílio de Ovídio, e me identificava completamente, porque me sentia "exilado" da vida. Os autores romanos sempre me tocaram muito. E há muito tempo eu acalento o sonho de estudar letras clássicas. E, um dia, lê-los no original. Até mais que os gregos...

* Eu tenho enorme respeito por essa época e fico imaginando um tempo em que convivam Ovídio, Virgílio e Horácio... Este um dos preferidos de Fernando Pessoa, modelo para Ricardo Reis. Cujas "odes" o Tio Papi também me mandou, pelas Belles Lettres, mas nas quais tampouco engrenei (sorry, Tio Papi, de novo). A vida de leitor pode ser de grandes realizações ― Homero, Virgílio, Joyce ―, mas é de frustrações também. Quando João Ubaldo Ribeiro morreu, estava em mais uma tentativa de ler Virgílio ("agora, quem sabe", declarou). Luiz Schwarcz, o editor da Companhia das Letras, outro dia confessou que nunca leu o Ulisses...

* Agora quero ler Dante. Eu digo "agora", mas não é agora agora. Quando for a hora. O que eu quis dizer é que "meu próximo passo", digamos assim, é Dante. Até porque o guia de Dante, na Divina Comédia, não é ninguém menos que Virgílio... Depois de Dante? Shakespeare, que eu precisava ler direito. Só aí poderei responder quem é "o maior poeta" ;-)


Julio Daio Borges
São Paulo, 25/5/2015


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