DIGESTIVOS
>>>
Artes
Terça-feira,
20/7/2010
Artes
Julio
Daio Borges
|
|
Digestivo nº 467
>>> Cachalote, de Daniel Galera e Rafael Coutinho
Se alguém ainda se lembra do Amores Expressos, foi um projeto que hospedou escritores brasileiros em algumas capitais do mundo, durante um mês, com a incumbência de, posteriormente, produzir uma “história de amor” naquele cenário. Desentendimentos à parte, foram criados alguns bons diários do projeto, alguns dos romances já vieram a lume, e, de repente, alguma coisa ainda pode virar filme. O fato é que, da experiência do Amores Expressos, nasceu um novo projeto da RT/features que reúne um escritor e um artista gráfico, a fim de produzir uma história em quadrinhos (que poderá, eventualmente, ser adaptada para cinema). Cachalote, que agora sai pelo selo “quadrinístico” da Companhia das Letras, com argumento de Daniel Galera e desenhos de Rafael Coutinho, é o primeiro fruto dessa nova safra. Cachalote se compõe de cinco histórias que acontecem em vários planos, mas que, ao contrário de filmes como Short Cuts (de Robert Altman), não se entrecruzam. A do escritor esquizofrênico, por exemplo, pode até lembrar a de alguém da geração de Galera, mas as outras são altas elaborações, que não permitem identificação imediata. A melhor delas talvez seja a do vendedor da loja de ferragens, que atrai mulheres sadomasoquistas, mas que acaba se apaixonando por uma maluca autodestrutiva. Em seguida, a história do playboy abandonado à própria sorte em Paris e na Espanha (como tanta gente que foi “para a Europa” ou “pra fora”, e se perdeu mais). Boa, ainda, a história do escultor, que, embora recluso, aceita um convite para atuar numa filmagem (mas que termina sem saber se foi realizada ou não). E boa, também, a do ator decadente, que está condenado a uma roda-viva de fama, eventos... e excessos perigosos. Galera, mais uma vez, exercita sua versatilidade como escritor, afinal seus textos já haviam sido adaptados para cinema e para teatro. E ganha uma nova ocupação: a de roteirista, profissional, de histórias em quadrinhos. Já os desenhos de Rafael Coutinho não deixam nada a dever à arte de seu pai, Laerte (igualmente pai dos Piratas do Tietê e de tantos outros personagens). Cachalote, enfim, lançou, com muita competência, o novo empreendimento da RT/features. Aguardamos as novas “duplas” (com mais ansiedade a que terá roteiro de Daniel Pellizzari – e que sairá pela célebre Dark Horse).
[Comente esta Nota]
>>> Cachalote
|
| |
|
|
Digestivo nº 464
>>> A Linguagem das Coisas, de Deyan Sudjic
Na alardeada guerra entre imagens e palavras, é raro encontrar um homem de letras que entenda profundamente de artes plásticas; ou, na via oposta, um artista plástico que maneje, com habilidade, as ferramentas da expressão escrita. Deyan Sudjic, diretor do Design Museum de Londres, é uma dessas raras exceções, tendo produzido um livro que fala de objetos, até de moda e de luxo – num tom diametralmente oposto ao das revistas de fofoca – em profundidade. A Linguagem das Coisas, pela editora Intrínseca, não se rende só à estética, à publicidade e ao consumo – frequentes nesse tipo de “literatura” –, evoca a história, os costumes e – imprescindíveis no nosso tempo – a técnica e a tecnologia. Enquanto a crítica de arte no Brasil parou em Andy Warhol e no século XX, Sudjic abre o texto com a aquisição de seu MacBook e desvenda, por exemplo, as origens do “desenho” do iPhone, de Jonathan Ive (a calculadora Braun, de Dieter Rams). Consegue, com admirável ironia, pensar o luxo, além da futilidade, do desperdício e da pobreza de espírito: “Luxo era a trégua que a humanidade encontrava para si da luta diária pela sobrevivência”. Ou: “Para certos objetos, o conceito de luxo é usado para criar a aura antes propiciada pela arte”. Ou, ainda: “O luxo contemporâneo depende da descoberta de novas coisas para torná-las difíceis”. Encerrando com Thorstein Veblen: “Só os que estão seguros de sua riqueza se sentem à vontade vivendo sem exibir suas posses”. E Sudjic não se intimida nem com o establishment da moda, começando por: “Moda não é arte. Mas nunca antes se esforçou tanto para sugerir que poderia ser”. Cutucando, também, a sociedade do espetáculo: “Inevitavelmente, o processo de oferecer uma dieta de espetáculo constante é sujeita à lei dos rendimentos decrescentes”. Sem deixar passar os “artistas” contemporâneos: “A arte é de uma eficiência extraordinária em transformar tela, fibra de vidro, carne de tubarão ou videoteipe em matéria-prima de leilões”. Para concluir com ninguém menos que Frank Lloyd Wright: “Os motores de locomotiva, os motores de guerra, os navios a vapor tomam o lugar que as obras de arte antes ocupavam na história. Hoje temos um cientista ou um inventor no lugar de um Shakespeare ou de um Dante”. E, nas suas próprias palavras: “Diz-se sempre que a verdadeira arte do mundo moderno é a engenharia”. (Alguém falou aí na Apple e em Steve Jobs?) A Linguagem das Coisas tem pouco mais de 200 páginas, mas é denso como a gramatura de seu papel (150g/m2). Sua edição lembra um coffee table book, também pelo peso, pela capa dura e até pelo assunto. Mas o volume de Deyan Sudjic pode enganar na aparência, mas não engana no conteúdo: é, além de atualíssimo, pertinente e, de forma inédita, profundo. Talvez sua principal mensagem seja a de que, justamente, também na nossa sociedade a aparência esconde muito.
[Comente esta Nota]
>>> A Linguagem das Coisas
|
| |
|
|
Digestivo nº 444
>>> Um enigma chamado Brasil, 29 intérpretes e um país
Embora falar português errado, ostentar ignorância e, quando conveniente, até fingir desinformação estejam muito em moda, houve um tempo em que interpretar o Brasil era, também, um hábito, e algumas das melhores cabeças, do País, se dedicaram a tal. Para quem se acostumou com o desrespeito ao hino (e à bandeira), com o vale-tudo na era da “governabilidade” e com o nível declinante das nossas “lideranças”, Um enigma chamado Brasil: 29 intérpretes e um país pode trazer certo alívio, nem que seja para evocar uma época, nem tão distante, de outros homens e de outros “valores”. Com organização de Lilia Moritz Schwarcz e André Botelho, o objetivo, desde o título, é apresentar os principais “intérpretes” do Brasil, que tentaram entender o País a partir das áreas em que atuavam. Logo, desde sociólogos e historiadores, pudemos contar, ainda, com notáveis em campos, aparentemente, menos propensos à “interpretação”, como a literatura e as artes. Assim, foram chamados pesquisadores contemporâneos para analisar, em ensaios breves, a vida e as ideias desses nossos “interpretadores”. Algumas boas surpresas são Maria Alice Rezende de Carvalho falando de André Rebouças, o companheiro de Joaquim Nabuco na campanha abolicionista; Antonio Dimas ressuscitando o combativo, e muitas vezes barroco, crítico Sílvio Romero; Carlos Augusto Calil devolvendo estatura a Paulo Prado, um dos pais do nosso modernismo; Angela de Castro Gomes reabilitando Oliveira Vianna, um conservador essencial; e Robert Wegner revisitando, com muita originalidade, Sérgio Buarque de Hollanda. Não faltam olhares para outros nomes igualmente “canônicos”, como Euclides da Cunha, Mário de Andrade, Câmara Cascudo e Gilberto Freyre, embora nem sempre os respectivos capítulos tragam alguma novidade, seja no conteúdo, seja na forma. São questionáveis as homenagens a contemporâneos como Antonio Candido, Roberto Schwarz e até Fernando Henrique Cardoso, mas sua consagração precoce, digamos, não diminui o esforço de se concentrar 500 anos num volume de menos de 500 páginas. Se os nossos governantes, hoje, se recusam a ler, e se condenam a repetir os erros do passado (por mais que haja pujança econômica), podemos, talvez, esperar que os líderes do futuro se disponham a conhecer os homens que pensaram o Brasil antes.
[Comente esta Nota]
>>> Um enigma chamado Brasil
|
| |
|
|
Digestivo nº 421
>>> Jubiabá de Jorge Amado, por Spacca
Albert Camus tinha Jubiabá em alta conta e resenhou-o, observando que Jorge Amado contava 20 e poucos anos quando o escreveu, e, justamente, por “vivê-lo” intensamente foi expulso do Brasil. Depois de relançá-lo, na nova coleção Jorge Amado, a Companhia das Letras edita uma versão quadrinizada por Spacca, dentro do novo selo Quadrinhos na Cia. Apesar de conter todos os principais motivos de Jorge Amado, Jubiabá soa politizado em excesso, depois da queda do Muro de Berlim. O próprio autor deve ter percebido, ainda em vida, que o tema da luta de classes ia se diluindo, enquanto o apelo da existência, dos amores, das aventuras, que tanto encantou Camus, continuava presente na Bahia, no Brasil. Spacca foi fiel e, ao mesmo tempo em que retratou Antônio Balduíno em suas andanças, e variadíssimas ocupações, manteve a conclusão de que o ex-escravo, negro, pobre apenas poderia se redimir através da greve ou da política. Baldo, de certa forma, prenunciou Lula – que embora não seja negro, nem “forro”, foi operário, sindicalista e ascendeu por meio da política, e das greves, enfim... O que o herói de Jorge Amado, nem o próprio, previa(m) era a entrada do Brasil nos BRICs, o PIB crescendo a mais de 5% anualmente e a “nova classe média”, formada pela emergência das antigas “C” e “D”. Ou seja, com o fim das utopias, a solução de Antônio Balduíno caducou, mas, ao mesmo tempo, sua receita inspirou o Brasil e o mundo subdesenvolvido, salvando camadas inteiras da população, ainda que pelo desenvolvimento do mesmo capitalismo... aqui, na Índia, na China. Se a globalização, e os investimentos externos, fizeram mais pelos conterrâneos de Baldo que o discurso de grevistas e sindicalistas (dentro e fora do poder), do ponto de vista humano, o que ainda restará do universo mítico de Jorge Amado na Bahia? Spacca dedicou-lhe um ano e meio. Quanto deveríamos lhe dedicar, a fim de continuar a linhagem romanesca do nosso País?
[Comente esta Nota]
>>> Jubiabá
|
| |
|
|
Digestivo nº 415
>>> Olhar Direto, de Paul Strand
A fotografia digital vulgarizou a fotografia; assim como os processadores de texto vulgarizaram a escrita; assim como o MP3 vulgarizou a música... Vulgarizar não no sentido de tornar vulgar, mas no sentido de tornar acessível ao vulgo, ao “homem comum”. Assim como adolescentes disparam canções de seus quartos, escrevinhadores metralham dos teclados para seus blogs, turistas em tempo integral miram seus celulares e distribuem imagens a todo instante. Isso é bom? Isso é ruim? É como é; e pronto. O fato é que a fotografia – que, pela repetição, pode até, acidentalmente, se tornar interessante (mesmo num fotógrafo amador) – às vezes precisa nos lembrar de que é, igualmente, arte. E, inclusive, foi num momento de transição, como este nosso, do século XIX para o XX, que os primeiros artistas-fotógrafos se revelaram. Como os primeiros cineastas, que se apoiaram nos grandes relatos da tradição escrita, esses primeiros artistas da máquina fotográfica dialogavam com a pintura, a arte em sua definição mais ampla. Suas fotos, mais que o registro (do momento), como que fazemos hoje (disparando quase a esmo), guardam um desejo de composição, de subversão da estética dominante, de, como dizem, educação do olhar. É o caso de Paul Strand, fotógrafo norte-americano, dos mais influentes do século passado, que mereceu exposição do Centro Cultural IMS do Rio (e que chega a São Paulo em fins de julho). Seu catálogo, Olhar Direto, parte da Nova York das primeiras décadas, onde Strand se revelou, até suas viagens pelo resto do mundo, num último instantâneo de 1964, em Gana. Seu estilo “brutalmente direto”, de acordo com Alfred Steiglitz, nos é “familiar” hoje, conforme aponta o material de divulgação. É verdade. A fotografia se “brutalizou”. Quem sabe não se vulgarize, neste novo milênio, para virar arte, de novo?
[4 Comentário(s)]
>>> Olhar Direto
|
| |
Julio Daio Borges
Editor
mais artes
|
topo
|
|