Digestivo nº 478 | Julio Daio Borges | Digestivo Cultural

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>>> As Filhas de Rashi de Maggie Anton pela Rocco (2008)
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>>> Traição Em Família de David Baldacci pela Arqueiro (2012)
>>> Bichos de Lá e de Cá de Lia Neiva pela Ediouro (1993)
>>> O Fogo de Katherine Neville pela Rocco (2011)
>>> Desvirando a Página - a Vida de Olavo Setubal de Ignácio de Loyola Brandão; Jorge J. Okubaro pela Global (2008)
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DIGESTIVOS

Quarta-feira, 27/4/2011
Digestivo nº 478
Julio Daio Borges

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Internet >>> O escandaloso blog de poesia de Maria Bethânia
Na música, todo mundo louvava Maria Bethânia, por ela não haver se rendido à acomodação dos outros Doces Bárbaros. Não havia se perdido em rock como Caetano, não havia se desencaminhado na política como Gil e não havia se aposentado precocemente como Gal Costa. Maria Bethânia parecia incansável: gravando compositores novos, fazendo pesquisa de ritmos, lançando selo próprio e, claro, fazendo shows — admiráveis desde a concepção até a performance (de tirar o fôlego das cantoras mais jovens). Acontece que a mesma Bethânia — que musicalmente admirávamos tanto — protagonizou um (ou se deixou envolver num) dos maiores escândalos de captação de recursos, via Lei Rouanet, via Ministério da Cultura, via Governo Dilma, via Era Lula... O projeto "O Mundo Precisa de Poesia" se apresentou ao MinC como um "blog", onde Maria Bethânia recitaria um poema por dia, e, para isso, solicitava quase 1,8 milhão de reais, sendo que 600 mil apenas para a sua remuneração. Tudo bem que o MinC aprovou "apenas" 1,35 milhão de reais para captação, mas conhecendo os blogs — como a blogosfera conhece — a grita foi geral. Primeiro porque qualquer pessoa que já tenha aberto uma conta de e-mail na Web, sabe qual é o custo de montar um blog: 5 minutos. Evidente que o custo de manter um blog é outro. Mas para fazer vídeos, e distribui-los via YouTube, não demora muito mais, não. Depois, porque o projeto literalmente caiu na rede e seu conteúdo era uma piada de mal gosto. A "síntese", os "objetivos" e a "justificativa" eram de uma redação quase infantil. E a equipe era a dos usual suspects: Conspiração Filmes, Andrucha Waddington e Hermano Vianna. Para completar: dos quase 2 milhões solicitados, o webdesigner receberia 6 mil, no total, e a manutenção/atualização do site custaria, simples e apenasmente, 8,4 mil reais (durante um ano). Em defesa de Bethânia — ou do projeto em que ela foi usada de "laranja" — vieram dizer que estava tudo dentro da lei. Podia até estar, mas, como dizia Boris Casoy nos bons tempos, não deixava de ser "uma vergonha". Outros projetos, de outros Doces Bárbaros, vieram à tona, para engrossar o caldo, mas a nova Ministra da Cultura nem ficou vermelha. Desta vez, o governo não poderia jogar na conta da "herança maldita" de FHC (e do PSDB), porque o projeto remontava ao ano passado (2010)... Ao fim e ao cabo, esse projeto é, na realidade, uma das contas que a sociedade está pagando pela terceira eleição, na sequência, do mesmo governo. Porque no Ministério da Cultura também existe malversação de recursos, e quem se aprochegou dos cofres públicos nos últimos 8 anos, quer continuar se beneficiando nestes próximos 4 anos... [7 Comentário(s)]
>>> Blog da Bethânia, o projeto
 



Imprensa >>> As Entrevistas da Paris Review, pela Companhia das Letras
Hoje "entrevista com escritor" virou commodity. Porque escritor virou commodity. Se cada pessoa que possui um blog pode ser considerada "jornalista", cada individuo que possui Word instalado em seu computador pode ser considerado "escritor". Não foi a internet que degradou o jornalismo, nem foram os PDFs que degradaram a literatura, foram os processadores de texto! Abra uma página eletrônica em branco, convide alguém a preenchê-la com letras de forma e, voilà, mais um ego-que-escreve no mundo... Antes não era assim, claro. E uma amostra de verdadeiros escritores pode ser encontrada no primeiro volume de Entrevistas da Paris Review, que a Companhia das Letras reedita agora. Óbvio que nem a editora de Luiz Schwarcz pôde resistir ao apelo dos falsos escritores contemporâneos - lançando-os até num selo à parte -, mas cumpre o seu papel nos lembrando quem foram, por exemplo, William Faulkner e Ernest Hemingway. O primeiro anuncia, inclusive, a explosão de autores-de-Word (em 1956!): "O artista não tem importância. Só é importante o que ele cria". E um recado especial para quem fica atrás de subsídio para a (própria) literatura: "As pessoas realmente têm medo de descobrir o quanto de privação e pobreza elas suportam." Concluindo: "Se um homem não é um escritor de primeira, então não há nada que possa ajudá-lo muito". Com a palavra, o autor de Adeus às Armas (em 1958): "Uma vez que escrever se torna o seu maior vício e o seu melhor prazer, só a morte pode detê-lo". Puxando a orelha dos escritores-palestrantes: "Quanto melhores forem os escritores, menos falarão sobre o que eles mesmos escreveram". Concluindo, mais uma vez, com realismo: "Quanto mais longe você vai na escrita, mais fica sozinho". As verdades de Faulkner e Hemingway, infelizmente, vão se diluindo à medida que o volume avança, a ponto de sermos resgatados apenas por Borges (em 1967): "Se um escritor descrê do que escreve, então ele dificilmente poderá esperar que seus leitores creiam nisso". E sobre seus contemporâneos (poderiam ser os nossos...!): "Eles não eram realmente poetas ou escritores. Era só um truque que aprenderam, e o aprenderam para valer..." Lamentavelmente, Capote se perde em seu esnobismo, Céline, na sua amargura, Auden, na sua consagração. E a nossa produção "liliputiana" - expressão cunhada por Paulo Francis - não redunda em grandes entrevistas, nem com gente como Ian McEwan. Na realidade, fica a impressão de que a Companhia procurou focar muito em seu próprio catálogo de autores, poupando-nos de outros raros momentos, como os propiciados pelas declarações de Faulkner e Hemingway (nas primeiras páginas). De qualquer forma, algumas breves palavras desses dois gigantes já servem para chacoalhar a árvore de frutas podres em que se transformou a nossa "literatura" contemporânea. [Comente esta Nota]
>>> As Entrevistas da Paris Review | Leia um trecho em pdf
 



Cinema >>> Julie (Powell) & Julia (Child), com Meryl Streep
Poucos gêneros de escrita foram tão enxovalhados quanto os blogs. Nem os poetas marginais dos anos 80, nem a imprensa de oposição dos anos 60, poucas categorias foram tão desacreditadas quanto a dos blogueiros. Os blogs apanham desde que nasceram, no final dos anos 90 nos EUA. E no Brasil, no início dos anos 2000, foram comparados ao gênero mais desqualificado de literatura, o diário adolescente. Numa época em que ninguém mais sabe o que é poesia — e na qual poetrastros não abundam como antigamente — comparar alguém que escreve a um diarista adolescente é a maior humilhação concebível. Portanto, um filme em que, justamente, a heroína é uma blogueira tem lá o seu mérito. Nem que seja o da novidade. E, claro, ela é inicialmente humilhada no próprio filme: sua mãe — como é praxe — questiona seus propósitos, duvida da sua audiência e aconselha que ela desista antes de mesmo começar. Julie Powell, a blogueira em questão, era uma apagada funcionária de baia — numa empresa de telemarketing? —, quando decidiu extravasar sua paixão por cozinhar. Abordando um clássico da literatura americana, de Julia Child, propôs a si mesma o desafio de executar uma receita por dia, e divulgar os resultados no blog. Como num conto de fadas na era da internet, seus posts vão chamando a atenção, ela mistura vida pessoal — é evidente —, e, do site da revista eletrônica Salon, ela migra para as páginas do New York Times. Lógico que, na vida real, os maiores detratores dos blogueiros sempre foram os jornalistas de papel, e parece assaz inverossímil que algum repórter fosse chamado para cobrir... um blogger. Mas aconteceu. O blog de Julie Powell virou livro. (E filme...) Em paralelo, é contada a história da mesma Julia Child, que a inspirou. E, ao contrário do que Julie imaginava, Julia teve igualmente suas crises existenciais: não foi de início aceita na escola de culinária Le Cordon Bleu (por ser mulher); foi quase ludibriada por uma de suas colegas (que desejava ter crédito nas receitas sem trabalhar); e lutou bravamente para ver seu livro publicado (não foi aceita "de primeira"). É fato que os blogs caíram de moda, com a ascensão de outras redes como o Facebook e o Twitter (a chamada rede de microblogs), mas o filme ilustra, ainda que simplificadamente, a gênese de uma empreitada autoral na internet. Os blogs talvez sejam um "momento" da Web, mas — como a geração mimeógrafo e os pasquins da ditadura — deixam suas marcas nos corações e mentes daqueles que ganharam (ou perderam) alguma coisa com eles ;-) [Comente esta Nota]
>>> Julie & Julia
 



Literatura >>> Mecanismos Internos: Ensaios sobre Literatura, de J.M. Coetzee
Coetzee deixou um rastro de antipatia, quando, convidado da Flip, subiu no púlpito e leu trechos de seu futuro livro, recusando-se a ser interpelado e a responder perguntas. Sem quase tradição nas chamadas "leituras públicas", a audiência em Paraty — que esperava alguma impressão sobre o Brasil, piadinhas para entreter e passar o tempo, e alguma frase de efeito para guardar no bolso — abandonou o auditório cabisbaixa, maldizendo o Nobel e prometendo vingança. Na verdade — para quem leu —, o estilo seco, econômico e sem concessões era o mesmo da prosa de Coetzee. Sua secura chega a ser cortante, sua seriedade chega a ser tragicômica e sua postura de indiferença não combina com o "estar-no-mundo" — ainda mais tropeçando nas famosas "ruas sem calçamento" de Paraty... (Ao contrário de Hitchens e Rushdie, Coetzee não "tomou um fogo" no Rio de Janeiro, e tamanho estoicismo impressionou os circunstantes.) Mecanismos Internos, contudo, para quem aprecia o escritor, é um grande chance de conhecer suas preferências e suas leituras. O "Robert Walser", de Coetzee, não consegue se ombrear com o de W.G. Sebald (na Serrote nº 5), mas seu "Walter Benjamin" é revelador do comunismo de última hora do autor de Passagens. Coetzee, aliás, desconstrói Sebald, em ensaio homônimo, e Sándor Márai, que experimenta algum renascimento (até a nossa presidente — quando candidata — havia sugerido que o lera). Coetzee revela uma admiração imensa por Beckett ("um dos grandes estilistas em prosa do século XX") e quase escarnece do homossexualismo de Whitman (com Wilde até trocou um "selinho", provoca o Nobel). Desconstrói, ainda, Faulkner, ou sua vida privada, e eleva novamente Saul Bellow, que vem sendo cada vez mais incensado desde sua morte (2005). Não são de interesse os ensaios sobre contemporâneos como Philip Roth (Coetzee escolhe o pretensioso Complô contra a América) e García Márquez (Putas Tristes é quase um último suspiro...). No balanço final, por mais que se discorde das preferências de Coetzee, é admirável que um Prêmio Nobel se dedique ao ensaísmo com essa disposição. Basta comparar com os autores nacionais, que mal conseguem preencher o rodapé literário de nossos combalidos jornais... A maioria dos ensaios foi publicada na New York Review of Books. (A nossa Serrote, aliás, quer lançar um concurso de ensaios. Sem um Coetzee tropical, rogamos para que as vagas não sejam preenchidas por "escritores" como Chalita, Coelho e Jabor.) [Comente esta Nota]
>>> Mecanismos Internos
 

 
Julio Daio Borges
Editor

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