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Quinta-feira, 12/1/2017
Belém do Pará, ano um. 401.
Enderson Oliveira

+ de 2200 Acessos



À sombra dos urubus, Belém chega aos 401 anos. Foto: Maycon Nunes


Quão estranha e sofrida pode ser (ou é) uma cidade castigada pelo calor e pela chuva quase diariamente? Quão esperançosa é uma cidade que é capital de um estado que desde o hino já setencia: “teu destino é viver entre festas, do progresso, da paz e do amor”? Quão suja e abandonada é uma cidade com uma “infinidade de obras-sem-fim” e monturos de lixo, em que seus próprios habitantes e filhos não se intimidam e, em qualquer local e a qualquer momento, escarram grosso e raivosamente em dezenas de cusparadas destinadas ao solo citadino, amaldiçoando-o? Quão alegre e diversificada é uma cidade que na cultura, em que pese a gestão raquítica (pública e privada), possui uma produção rica, peculiar e instigante?
Após o quase apagado aniversário de 400 anos em 2016 (você lembra de algum grande evento na cidade no período? Uma grande reportagem? Algo que não fosse o clichê chato e insuportável de bolo-no-Ver-o-Peso-risos-e-olhares-famintos-e-baldes-com-bolos-cores-sabores-da-cidade-morena?), talvez seja hora de olhar para o passado "de relance" e, urgentemente, projetar e executar um/ no futuro ações minimamente concretas que ajudem a melhorar esta cidade. Belém pode começar então uma nova trajetória. Vive o 'ano um'. O 401.

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Longe de clichês midiáticos e turísticos, este texto tem o propósito de incomodar, ainda que seu alcance, eu sei, seja mínimo. Mesmo assim, é feito com uma certeza: Belém precisa de seus filhos aqui nascidos e os calorosamente adotados. Cada um, ao seu modo, vive a experiência de viver e estar aqui na cidade, na Amazônia.
Para alguma mudança é preciso pensar esta cidade, conhecê-la, perder-se nela (Benjamin), experienciá-la em seus diversos aspectos. Levando tudo isto em conta é que nos últimos dias entrevistei doze pessoas, mesmo número da data de aniversário da capital paraense, para comentarem sobre o futuro da cidade. Credos, cores, profissões, idades, origens diferentes e muitas outras características misturam-se em um caleidoscópio que possui um único desejo que, no final, é um sonho: a melhoria de Belém.

CONTEXTOS
Esta melhoria, sabemos, é (ou deveria ser...) pensada (e não é executada) há anos, décadas e, talvez, séculos. Para a professora e pesquisadora Larissa Leal, “como qualquer cidade nascida no Brasil do século XVI, Belém tem vários problemas de infraestrutura urbana que precisam, acima de tudo, de muita vontade política para resolver. Saneamento é o maior destes problemas pra mim, porque ele tem a ver com a própria dignidade humana, basta andar pelos bairros à beira do rio Guamá para ver isso num cenário mais grave. Por isso, esse é o passo 1 para elevar a qualidade de vida na nossa cidade nesse recomeço, sua maior urgência”, destaca. Mestra em Letras e Linguística, Larissa é professora de Língua e Literatura do Instituto Federal Goiano - Campus Posse e mora em Goiás desde 2012, mas sempre volta à terra natal.


Área de palafitas em Belém, uma grande periferia. Foto: Daniel Leite. A foto integra o acervo do projeto de pesquisa Fisionomia Belém.

A opinião da docente se aproxima de outra professora: Sabine Reiter, alemã, professora desde 2013 na Universidade Federal do Pará (UFPA). Diz Sabine que “da minha perspectiva de ‘fora’, acho que a cidade precisa com mais urgência um sistema de saneamento para todos os bairros. Também acho que seria bom pensar em um bom ‘clima urbano’, do tipo como foi implementado pelo Senador Lemos na Belle Époque: mais árvores nas ruas para dar sombra e ar mais fresco em toda a cidade (e não apenas nos bairros centrais). O trânsito também precisaria de reajustes – atualmente são muitos carros para uma cidade que foi construída para uma população bem menor”, explica.
O trânsito também preocupa outro estrangeiro que fez de Belém sua segunda casa. Para o antropólogo colombiano Diego Léon Blanco, as “angústias” metropolitanas possuem uma explicação maior, mais complexa e universal da que vemos e vivemos diariamente nas vias da capital: “os prefeitos estão sem novas ideias”, decreta.
“Se nesta época de redes sociais, a conexão imediata e simultânea é a natureza da nossa cultura, a cotidianidade dos deslocamento em carros e ônibus está fora dessas simultaneidades. Passamos horas e horas nas ruas, os carros andam até 200 quilômetros por hora, mas no tráfego das 18h são tartarugas. Ainda bem que o tempo consumido no tédio do tráfego aproveitamos no mundo do nosso celular. O que ainda não se resolve nas ruas e nas estradas pelo tempo gasto, se resolve no não tempo sem fio de nossos móveis”, explica Diego.


A imagem é em um ônibus em um dia qualquer de Belém, mas poderia ser em outra metrópole.Foto: Maycon Nunes

O colombiano, que no último ano residiu na Cidade do México, vai além: “a mobilidade em Belém é um caos em crescimento. Então, como resolver? Quem vai deixar de usar carro? Em grandes cidades como Bogotá ou Cidade de México muitas pessoas usam carros de 4, 5 metros de comprimento para uma pessoa só! Um ser humano na estrada de uma grande cidade ocupa todo esse espaço! Em outras cidades do mundo estão resolvendo o assunto com pequenos carros elétricos, metrôs, ciclovias, ideias para pensar a mobilidade na cidade de outra maneira”, sugere.
Falar de trânsito onde se sonha em um dia ter acesso a um minguado e já ultrapassado “sistema” de Bus Rapid Transit (BRT), tais iniciativas são impensáveis. Para aumentar o desconforto, basta lembrar que em capitais menores e sem o “legado da Copa”, outras iniciativas bem mais ousadas já foram tentadas e já existem há anos, como o Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) em Maceió, cidade cuja geografia e organização em suas áreas afastadas das praias se assemelha e recorda bastante a estrutura da Cidade Nova, em Ananindeua, região metropolitana.

POTENCIALIDADES DEVE(RIA)M SER EXPLORADAS
Na cidade que ignora as outras mais próximas e esquece de si mesma, nem ao menos a cultura e o turismo de fato são bem explorados e/ou servem de grande e constante consolo. Uma rápida pesquisa no Google Trends mostra que nos últimos treze anos, notícias, imagens e dados sobre Manaus foram bem mais buscados que Belém. O que é lógico pelo (novamente) tal “efeito Copa”, pode ferir o "ego paraora" pela observação do caráter de inércia a que muitas vezes estamos submetidos e que alimentamos... Nesse sentido, a gestão cultural insípida – mas que começa a dar sinais de maior organização e crescimento – talvez mais atrapalhe que colabore.


Segundo o Google Trends, desde 2004 até 12 de janeiro de 2017, Manaus é muito mais "buscada" que Belém. Lembre-se: no site você pesquisa, busca, o que tem interesse, precisa saber, quer conhecer mais... Imagem: Pesquisa de Enderson Oliveira/ Reprodução Google Trends

Para o diretor e roteirista Fernando Segtowick, “basicamente o que se tem falado de positivo sobre Belém é a sua cultura, mas, infelizmente, os espaços voltados a ela estão situados, na sua grande maioria, nos bairros centrais da cidade. Se pudesse dar uma sugestão é a criação e o fomento de espaços/iniciativas culturais na periferia de Belém. Quem sabe um circuito de salas de cinemas populares como foi feito pela Spcine em São Paulo? Sem dúvida, na realidade atual da cidade parece um sonho, mas que poderia começar pelo incentivo aos cineclubes nesse bairros. É triste que se tenham poucas salas de cinema na cidade, e, a grande maioria, voltada unicamente ao cinema comercial”, exemplifica.
A ousadia da ideia de Fernando não é aleatória e possui certa lógica, considerando a proximidade e atenção do produtor sobre gestão. Com trajetória peculiar e importante que vai além dos clichês de Belém e Amazônia, Fernando é sócio da produtora multiplataforma MARAHU. Recentemente dirigiu as séries "Eu Moro Aqui”, vencedora do 1o Edital Cultura de Audiovisual e "Diz Aí Amazônida", exibida no Canal Futura, e indicada ao Prêmio TAL como umas melhores séries de relevância social da América Latina. Em 2017, vai lançar dois curta-metragens: o documentário “O Caminho das Pedras" e a ficção "Canção do Amor Perfeito".



Gestão, gestão, gestão... Talvez a falta dela seja o grande problema do corolário dos demais que aqui são listados e que você já deve ter lembrado ou observado ao olhar pela janela ou outro local que tenha acesso agora.
É necessário ter pensamento estratégico e gestão desde coisas “pequenas”, como cuidar deste blog e página no Facebook; bem maiores como criar, inovar e manter espaços/lojas/casas de show (observemos, em especial nos bairros do Umarizal e do Reduto, a quantidade de locais que abrem, "tornam-se sucesso" e, em alguns meses, fecham as portas, sendo prosseguidos por outros lugares que seguirão no mesmo ciclo) até chegar de fato na necessidade de uma gestão focada literalmente na política (tal qual o conceito aristotélico), pública, atualizada e citadina.
Neste sentido, para Tienay Costa, cientista política e professora, “nossa cidade tem tantas potencialidades, porém precisamos urgentemente de uma gestão pública mais comprometida e responsável, que possa priorizar não apenas o turismo ou o crescimento econômico, mas também a promoção de oportunidades, a valorização cultural, a segurança e a democratização do espaço público. Se eu pudesse dar um conselho a Belém, diria para sermos mais exigentes com nossos representantes e menos individualistas do ponto de vista político. Para os 401 anos e diante, desejo mais senso de coletividade, mais consciência e criticidade”, define.
Indo além, a publicitária, professora e candomblecista Thiane Neves Barros, comenta que "Belém precisa urgentemente garantir direitos à sua população. Direito ao transporte acessível e de qualidade, direito à moradia e à saúde em toda a sua extensão, gerar oportunidades de crescimento horizontal tanto na cidade quanto nas ilhas. Nesse ano 01, precisamos recomeçar olhando para as pessoas, pensar na Belém que queremos, planejar e estabelecer metas para uma cidade que tem todo o potencial para ser mais harmônica. Belém merece um pacote de políticas públicas que precisa ir além das gestões partidárias. Desejo que a população de Belém seja menos violentada pelas balas de um Estado tão opressor e pela má gestão política, que as periferias não sejam mais o palco de tantas chacinas, que a juventude negra tenha as mesmas oportunidades que as juventudes brancas e asiáticas. Desejo menos cárcere, menos linchamento, menos punitivismo".



É ainda Thiane que complementa: "que os Povos Tradicionais de Matriz Africana (candomblé, umbanda, pena e maracá, mina, Daime, e todas as demais) tenham as mesmas garantias que o poder público municipal possibilita às demais religiosidades, que as populações indígenas sejam respeitadas nessa cidade e que as gestões sejam cada vez menos racistas. Não existe um bom futuro para Belém, se o racismo continuar matando tanto por aqui. Desejo também menos feminicídio, mais atenção primária de combate à violência contra as mulheres. Temos como pensar em um recomeço com equilíbrio, equidade e garantia de direitos aos povos e suas tradições que constituem a população dessa cidade que é a minha cidade. Eu amo Belém e sonho com outros 400 anos para nós", afirma.
Segundo a mesma linha de pensamentos e desejos, o ator e diretor teatral Caled Garcês, por exemplo, deseja que Belém tenha “muita segurança e cuidado que acolhe tantos corações, ritmos, belezas naturais, crenças e fé. Que as pessoas possam olhar com mais carinho e zelo pra esse lugar que é lindo na sua essência mas que por falta de cuidado, acaba refletindo uma realidade que não é a que esperamos: a do abandono. Eu desejo que a cidade morena, terra das mangueiras, do Círio e tacacá seja cuidada da maneira que merece, com amor, carinho e respeito para que a sua beleza resplandeça não somente para os que aqui habitam, mas para o mundo. Eu desejo mudanças para ti, Terra do açaí, e que os frutos de todos esses cuidados te tornem a Belém Morena onde todos amem e queiram estar", enfatiza.


Com pouco mais de 1,5 milhões de habitantes, o crescimento de Belém é completamente desordenado.Foto: Cezar Magalhães

LUGARES (DE FALA)
Repleta de imaginários e lugares de fala como “nada aqui presta”; “ruim com fulano, pior sem ele”; “no tempo do Barata...”; “na época da Borracha...”, talvez (a população de) Belém seja marcada pela inércia. Sejamos sinceros e atenciosos: reclamamos muito, fazemos pouco (e não raramente ainda duvidamos/ criticamos quem faz), cansamos rapidamente. Esperar uma solução dos céus é mais cômodo e mais simples. Ad(Mirar) outros locais é melhor ainda. O “problema” é que tal admiração muitas vezes também parte de imaginários (nem sempre "reais") como “lugar com mais oportunidades”, “cidade maravilhosa”, “lá pelo menos tem praia”, “vou poder usar roupa de frio” e assim por diante. Neste contexto, uma região torna-se mais especial: o Sudeste. O El Dorado da Amazônia contemporânea. A Pasárgada pós-moderna onde se-trampando-tudo-dá.
Sair de Belém e exilar-se e/ou tentar crescer em outra cidade é errado? Claro que não. A atitude ajuda de fato a capital paraense? Provavelmente não, o que não significa que é algo condenável, obviamente. Pelo contrário: só se cresce em contato com o outro, com as trocas.
“Como leitora do DAAD (Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico) e professora visitante na UFPA desejo às universidades da cidade que se abram mais, que recebam mais estudantes e professores de fora e mandem os seus docentes e estudantes para outros lugares, e que aprendam línguas estrangeiras (não só o inglês), porque cada nova língua pode dar uma nova visão ao mundo e possibilita um conhecimento e entendimento melhor do "outro" e um diálogo entre pessoas com perspectivas diversas”, destacou Sabine Reiter, que é linguista e entre 2001 e 2006 trabalhou como pesquisadora em um projeto de cooperação alemão-brasileiro no Museu Paraense Emilio Goeldi na área de documentação de línguas indígenas.
Indo além, esse imaginário-devoção por outras capitais pode causar outros tipos de “danos” à capital paraense. Neste sentido, a editora de vídeos Adrianna Oliveira aconselha: “Invista nos seus. Não pense que o que vem de fora sempre é melhor. Talvez, dessa maneira, Belém não seja na nossa memória, apenas a cidade da nossa infância, um ambiente que não nos pertence mais porque tivemos, quase que obrigatoriamente, tentar a vida em outro lugar. Assim, eu acredito que um dia, talvez, ela seja ovacionada como um lugar que te pede, mas que te dá de volta também”.


A cidade se reflete em uma poça qualquer de água e lama... Foto: Angelo Cavalcante. A foto integra o acervo do projeto de pesquisa Fisionomia Belém.

Adrianna afirma ainda que “Eu tenho a impressão de que quase tudo fora do eixo sudeste, centro oeste e sul é mais difícil. Frete grátis para todo o Brasil, exceto norte e nordeste. Nortista é nordestino no sudeste, castanha do Pará agora é castanha do Brasil. O que é nosso, no fim das contas acaba sendo deles também, mas as oportunidades deles quase nunca são nossas. Então o que eu desejo pra gente é orgulho, daqueles bons, porque a gente remanesceu a muitas dificuldades e ainda assim continuamos a produzir. Desejo também que trabalhadores se ajudem, que a gente incentive os profissionais daqui ao invés de acreditar mais uma vez que o que vem de fora é melhor”, destaca.
Curioso é perceber que talvez pessoas "de fora" por vezes vaorizem mais a cidade que nós mesmos. Para a colombiana Ana Patricia Cacua Gélvez, mestranda no Programa de Pós-Graduação em Biologia de Agentes Infecciosos e Parasitários da UFPA, a população de Belém em geral é "muito acolhedora, são pessoas muito boas, que ajudam muito os estrangeiros", enfatiza. Ainda assim, não deixa de lado os problemas estruturais que a cidade possui, em especial o lixo e a insegurança. "Meu desejo é que Belém fosse muito mais limpa, tem muito lixo nas ruas. A solução com o problema da limpeza pede urgência", afirma.
"À medida que a gente passa mais tempo na cidade a gente aprende a ter mais carinho pela cidade, muito mais amor, como se fosse parte nossa, por isso torço que tenha mais índices de emprego, que as pessoas fiquem bem e que seja uma cidade mais segura e especialmente mais limpa", deseja a pesquisadora.

A "CIDADE POLIFÔNICA" E SUAS PERSPECTIVAS
Para tal fazer emergir tal orgulho, talvez seja necessário fazer uma força-tarefa em áreas/ “instituições” como na educação, nas famílias e nas mídias. Mais ainda: deveria vir com a proximidade da história para (re)conhecer de fato Belém. Estranhá-la. Compreendê-la. Aceitá-la. Sem resignação, mas sim com a paciência de quem sonha em fazer um grande amor crescer e melhorar ao seu lado.
As ações conjuntas são sugeridas por Sandro Ruggeri Dulcet, espanhol nascido em Barcelona, em 1962. Formado em Arte Dramática com especialidade em cenografia teatral, mora em Belém desde 1994. Atualmente Sandro dirige a empresa de tradução e interpretação Humana Com & Trad e o Instituto Humana, que atua na área da arte educação e em projetos sociais.
Para Sandro, deve haver uma intervenção e modificações levando em conta:
a) Cidade como espaço de convivência; a relação entre o usuário do espaço urbano e o próprio espaço físico: inúmeros exemplos de falta de percepção por parte dos cidadãos de que esse espaço é de uso partilhado, onde os meus direitos têm que entrar em sintonia com os dos outros. A falta de percepção deveria ser corrigida pelo poder público, que falha na aplicação do Código de Postura. A solução passa por uma intervenção maior e mais harmoniosa de todos os participantes. Essa intervenção envolve aspectos pontuais como a limpeza, o comércio informal, e mais amplos como a construção onde o antigo e o moderno entrem num diálogo mais proveitoso.


Natureza e urbanidade se encontram e dialogam, pacificamente ou não, diariamente na capital paraense. Foto: Maycon Nunes

b) Cidade como espaço de educação ambiental: Trata-se de uma cidade na Amazônia, água e floresta deveriam ser os protagonistas, mais do que asfalto e prédios. Por que não fazer de cada canteiro um lugar para que as diferentes espécies locais sejam conhecidas, com informações detalhadas sobre a história biológica da Região? Isso passa por um projeto de arborização que teria como objetivo, também, fazer com que o pedestre pudesse andar nas ruas ao abrigo do sol equatorial e da chuva torrencial.
c) Cidade como espaço de luz: No mesmo sentido, aproveitar tudo aquilo que nos lembre que esta cidade não é uma cidade implantada, mas tem as suas peculiaridades, o seu jeito pessoal e intransferível, e o seu urbanismo e arquitetura deveriam refletir isso, sem cair num regionalismo folclórico e bairrismo redutor. Nesse sentido, as construções e o espaço urbano deveriam levar em consideração o clima, a iluminação, o regime das chuvas na hora de ser projetados e na sua realização.
Metas bonitas, quiçá utópicas, mas que precisariam de ações e pessoas de fato interessadas em ajudar a capital. E muito mais além. Para o doutor em Ciências Sociais, pesquisador, professor e escritor Relivaldo Pinho, “os problemas da cidade continuam os mesmos de algumas décadas e eles não serão resolvidos por jargões como ‘vontade política’, ‘determinação’, ‘coragem pra fazer’ e coisas do gênero. Belém precisa enfrentar a crise de sua urbanidade com conhecimento, planejamento, legislação mais eficiente. Se isso é um aspecto decisivo, isso não garante uma mudança do espírito de uma cidade que vem se deteriorando”, explica.
“Inchada, desordenada, violenta, Belém precisará de muito tempo para mudar esse espírito do tempo que a vem marcando e gravando em seus habitantes a sensação de suportar sobreviver na cidade e não de viver como uma experiência cotidiana. O cotidiano belenense, com exceção da sua imagem veiculada com saudosismo e uma valorização insustentável de uma identidade romantizada, sobrevive precariamente”, decreta o autor de "Antropologia e filosofia: experiência e estética na literatura e no cinema da Amazônia" (Ed.ufpa.) e diretor, junto com Yasmin Pires, do documentário Fisionomia Belém.



Como se nota, neste ciclo de ações e percepções, práticas e modos de compreensão de nenhum modo se distanciam. Pelo contrário. É o próprio Relivaldo que afirma que “espero, sinceramente, que a cidade sofra uma modificação nesses aspectos estruturais. E que essa modificação atinja, posteriormente, a subjetividade de seus habitantes. Belém só enfrentará esse desafio se tiver o retorno em ações estruturantes e se seus habitantes conseguirem assimilar um sentido de experiência que funde, minimamente, um sentido de pertencimento”.
De qualquer modo, o que sempre segue presente é a necessidade imperativa de que a mudança de fato, depende de cada um de nós. Clichê? Sim. Bastante. Porém, é necessário sim compreender o papel de cada um e desenvolvê-lo da melhor forma possível.
Por fim, para Marcelo Vieira, jornalista especializado em Sustentabilidade e professor, mora no Rio de Janeiro desde 2010, que mas mantém laços firmes com a terra natal, “Belém precisa mais do que nunca dos belenenses, tanto os nascidos aqui como os que a adotaram como cidade do coração, os que estão perto e os que estão longe, como é o meu caso". E isto porque é necessário "pensar a cidade com os olhos no futuro, no crescimento sustentado, na inclusão e no respeito, eliminando o oportunismo voltado a favorecer um ou outro grupo na luta pelo domínio político e econômico. Precisamos aprender a ser os cidadãos da Belém dos nossos sonhos - é o caminho para que ela se torne realidade”, finaliza.

Feliz chance de nova vida, Belém. Feliz ano um, 401.

Por Enderson Oliveira


Postado por Enderson Oliveira
Em 12/1/2017 às 18h12



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