O Equilibrista

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Quarta-feira, 17/8/2016
O Equilibrista
Heberti Rodrigo

 
Imre Kertész - O Fiasco




Antes de publicar o texto que escrevi, gostaria de postar um breve trecho do livro, O Fiasco, do escritor Imre Kertész, Prêmio Nobel de Literatura 2002 e que veio a falecer neste ano. Há uma ligação muito estreita entre o texto de Imre e o meu, sobretudo no que se refere ao fato de alguns homens se tornarem escritores. Dizem que é questão de talento. Será?


Basta; não vale a pena procurar minha origem: ela não existe. Caí em um curso, que, em consequência da falsa noção de tempo que nasceu junto comigo, acreditei ser o início. Tenho uma ou duas anedotas e algumas lembranças pessoais, como todo mundo. O que significa isso?No ponto do aquecimento adequado, tudo se funde na massa comum, unifica-se com a matéria inexaurível, que produzem nos hospitais públicos e fazem desaparecer em valas comuns ou, em casos melhores, nas áreas de produção. Vasculhando minha origem, apenas vejo uma fileira densa, sem fim: minha tropa marcha; num calor atordoante, às cegas, ora cambaleante, ora em disparada, lá fico tropegando eu também. Em determinado instante - sabe-se lá por quê - saí fora da fileira: não fui adiante. Sentei-me na ribanceira ao lado da estrada, e meu olhar repentinamente caiu na estrada atrás de mim. - Seria isso o que os literatos chamam de 'talento'? Não acredito muito nisso. Em nenhuma declaração minha dei algum tipo de qualquer talento ou originalidade.

Contato: escritor.equilibrista@gmail.com

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Postado por Heberti Rodrigo
17/8/2016 às 08h11

 
Qual é a sua remuneração?


O Emigrante, do escultor Bruno Catalano (França)



É escrevendo que sei e faço aos outros saberem que não sou apenas um escritor, mas alguém que, diante do mundo, se emociona e reage e resiste à sua maneira. Não sou hipócrita de desprezar a importância do dinheiro, mas nunca busquei ou entrevi na escrita apenas um mero ganha-pão. Antes me moveu a necessidade de expressar um modo de ser, de procurar compreender minha vida e de reagir ao mundo. É a atividade que ocupa boa parte de meu dia, e pela qual minha personalidade se manifesta numa linguagem própria. Desde pequeno há uma inclinação em mim a observar os desdobramentos de minha individualidade, sempre procurando elucidar a dinâmica de minha vida, seus limites e conflitos, quase todos tornados manifestos em minhas relações com o mundo. Na época não sabia mas já era escritor. Em minha ingenuidade, pensava que escritor era quem escrevia. Hoje sei que não é bem assim. Muitos são os que discorrem sobre um tema com belas palavras e conforme as regras da gramática, mas não dizem nada pois lhes falta a vivência íntima do assunto, a necessidade apaixonada de pessoalmente explorá-lo e comunicá-lo. Para escrever é fundamental ter algo a dizer, mas são igualmente necessárias a ousadia e a obstinação de dizê-lo ao seu jeito elaborando uma visão e uma linguagem particulares. Isso requer o tempo e a paciência de um trabalho artesanal, e faz da escrita uma expressão legítima de resistência e revolta, sobretudo numa época em que se vive em grande velocidade, em que tudo está aí, mastigado, pronto para ser reproduzido e consumido. Ao escrever, oponho-me ao status quo e seu modo autoritário de considerar a vida e regrar as relações e atividades humanas, desejoso em fazer de cada um de nós um autômato condicionado à diversão e ao consumo. Uns ganham mais, outros, menos, mas quase todos somente encontram satisfação em seus trabalhos no dia em que recebem seus salários. Quando viver resume-se ao dinheiro e ao consumo, o que mais atrai é o que degrada e massifica, empobrecendo-nos numa estúpida ânsia de ganhar cada vez mais dinheiro. Viver não é apenas deixar-se ser apossado passivamente pelo mundo, tragado pelos seus modismos e valores; é também contrapor-se. Sei que é possível que tal olhar para a vida pareça estouvado às pessoas práticas, como muitas vezes a estas lhes parece a raiva e a revolta de alguém diante do irremediável. Entretanto, se algo profundamente revolta esse alguém é natural que sua raiva se manifeste, independente do juízo que outros farão dela. A raiva é uma reação natural de um ser humano diante do que o choca, o fere e o desorganiza. Escrever muitas vezes é a expressão autêntica de uma revolta suscitada por algo que me foi subtraído ou negado, ainda que em muitas ocasiões não consiga explicitar o objeto dessa carência. É minha maneira de buscar o que me falta; uma busca nem sempre fácil, mas demasiado gratificante. Qualquer outra ocupação, e mesmo o próprio ato de consumir, pode também ser vista como uma busca diante de uma carência - carência esta que nem sempre se resume a dinheiro. De um modo geral, acredito que toda atividade humana consiste no esforço de encontrar modos de preencher vazios, e a paixão e a originalidade que cada ser humano demonstre ao fazê-lo no dia a dia, seja gerenciando pessoas numa empresa, escrevendo, criando filhos ou varrendo uma rua revelam traços inequívocos de sua personalidade, além da satisfação e da remuneração que lhe propicia sua atividade.

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Postado por Heberti Rodrigo
4/8/2016 às 11h35

 
Make a Wish



Anoitecia. Ao chegar do trabalho, refugiou-se no quarto. Não acendeu a luz. Não poderia. Vestindo um tailleur azul-marinho, espontaneamente desapareceu na escuridão, aliviada. Era como se não mais existisse. Na verdade jamais teria pensado assim, pois sempre lhe foi natural existir. Entretanto, se existia, era de maneira diluída, anulada entre os demais funcionários na repartição, em meio aos transeuntes na rua ou mesmo no apartamento que dividia com duas colegas. Opiniões corriqueiras e condescendentes, pensamentos e experiências ordinários eram tudo o que possuía e igualmente possuíam-na. Nisso consistia a estreita superfície sobre a qual sua existência ia se equilibrando. Martirizada por uma terrível enxaqueca, tateou os bolsos à procura de suas pílulas. Tomou duas quando uma bastaria. Talvez buscasse aplacar também os apelos de sua vida íntima. Lançavam-na num doloroso conflito: sentia necessidade de viver o que espontaneamente brotava de si mesma, individualizar-se, mas pressentia que ultrapassar os limites daquele ambiente em que se habituou a viver era-lhe o maior dos riscos. Temia desequilibrar-se. Ligou o rádio e deitou-se à espera de algo que viesse a distraí-la enquanto as pílulas não surtissem efeito. Em vão. Revivia suas lembranças de juventude, época em que sonhou mudar o mundo, e frustrou-se ao constatar que ele é o que é e não o que ela pensava que deveria ser. Anos depois imaginou-se escritora, casada e com filhos, mas para tudo lhe faltou encontrar seu jeito de se entregar. "Se tivesse dinheiro, deixaria esse emprego...", “Se pudesse ser outra, talvez...", devaneava. No fundo, tanto "se" outra coisa não refletia senão seu desejo de seguir vivendo à deriva das circunstâncias, dissipando-se interiormente. Outra pílula. Estava prestes a dormir quando lhe adveio o receio de tornar a sonhar e, ao acordar, ver que tudo continuaria como até então. Exausta, percebia que logo não mais aguentaria esperar que o acaso a levasse a uma decisão da qual ela própria se defendia. Essa espera desesperava-a, sufocava-a. Essa espera era sua vida. Levantou-se da cama e caminhou até a janela. Acendeu um cigarro e se pôs a olhar a rua. Por um momento, uma suave brisa acariciou-lhe o rosto. Contemplando o céu, notou uma estrela cadente. Seus olhos se encheram de lágrimas quando se lembrou que na infância se encantava ao avistá-las e, confiante nas palavras da mãe, fazia um pedido. Nenhum se tornou realidade. "Por quê?”, questionou-se num lampejo de raiva, que nunca antes se atrevera a manifestar, e baixou os olhos, resignada. Durante alguns minutos, permaneceu assim, em silêncio, apenas observando a movimentação dos pedestres e dos automóveis. “Dia após dia, levam suas vidas iludidos pela ideia de que a realização de seus sonhos depende apenas de suas próprias vontades; no entanto, quantas vezes contrariam-nas as circunstâncias?” falava para si própria, quando, num inusitado afluxo de forças, pela primeira vez sentiu-se encorajada a entregar-se plenamente; e, sem medo de se machucar, talvez por acreditar que tudo continuaria como sempre fora, desapareceu na negrura do asfalto e da multidão que por ali passava.

Contato: escritor.equilibrista@gmail.com

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Postado por Heberti Rodrigo
1/8/2016 às 07h51

 
Arte e Individuação



"Não me interessa vir a ser o homem mais rico no cemitério...Ir à noite para a cama dizendo a mim próprio que fiz algo de maravilhoso...é isso que me interessa." Steve Jobs


A maioria de nós nasceu para uma vida superficial. Está aqui para girar as engrenagens, para dizer amém, e não para pensar. Por quê? Porque pensar é tomar um caminho difícil e perigoso. Quem pensa, quem obstinadamente mergulha em seus próprios pensamentos pode ir muito longe, descobrindo novos mundos, ideias e intuições no fundo de si mesmo; expõe-se, no entanto, ao risco de se perder nestes mesmos mundos e não ser capaz de tornar à superfície. Corre o risco de se isolar. Não digo com isso que cada homem não tenha um pensamento - uma visão de si mesmo e do mundo. Seria tolice negar algo inerente à existência humana como a necessidade de encontrar meios de explicar e justificar para si mesmo a vida, sobretudo em seus aspectos mais dolorosos. Nesse sentido todos temos um pensamento, mas pensar é coisa diversa, é um ato individual de coragem e rebeldia, é viver por conta própria. Quem entre nós ousa seguir elaborando por si mesmo, segundo suas próprias intuições e vivências, aquele pensamento que se inicia na mais tenra idade sendo constantemente pressionado a silenciá-lo para adotar a crença alheia? Quem estaria disposto a correr o risco de se ver à margem? Apenas aquele que resiste a ser domesticado, uma personalidade que compreende que, para se desenvolver e se afirmar, não poderá evitar os desafios íntimos e as lutas que travará com outras personalidades se sensibilizará com a beleza de tal caminho e terá força para percorrê-lo.Um homem que não assume por si mesmo responsabilidade alguma pela sua vida e não quer nem mesmo pensar sentirá necessidade de procurar fora de si uma autoridade. Exigirá um chefe, um guru. Tomará como sua a opinião alheia. Tal homem se corromperá diante do coletivo em busca de aceitação e segurança. Houve ocasiões em que ouvi dizerem que todos podem ser artistas. Não creio. Ainda que todos nascessem com alguma inclinação para as artes, poucos não condenariam ou asfixiariam em si mesmos o aspecto introspectivo, insubmisso e inquieto que caracteriza toda natureza criativa e constantemente a predispõe a conflitos com o meio que a circunda. Diante do outro, a maioria dos homens se sente desencorajada a expressar e viver o que realmente pensa; não se permite desenvolver plenamente sua personalidade. Longe de se tornarem mais ricos, empobrecem. Já o grande artista não faz concessões quanto à sua maneira de pensar ou de externar um pensamento pelo qual se afirma em sua obra. Não há distinção entre o seu sentimento de vida e a maneira pela qual o expressa. Aceita os riscos de ser o que é, de preservar a excepcionalidade de um pensamento que se desenvolve e enriquece a partir de suas vivências intimas, não das alheias. Cresce, mas não se deixa domesticar e, assim, com o decorrer dos anos, aprofunda sua singularidade, tornando-se cada vez mais fiel ao que o faz ser o que é, distanciando-se da grande massa de homens e mulheres que é meramente arrastada pelos modismos e conveniências.

Contato: escritor.equilibrista@gmail.com

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Postado por Heberti Rodrigo
13/7/2016 às 07h47

 
Poema em Linha Reta - Pessoa

Fernando Pessoa

Ele que me mostrou que é possível ser grande sem deixar de ser humano.

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.


E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.


Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...


Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,


Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?


Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?


Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.


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Postado por Heberti Rodrigo
8/7/2016 às 14h42

 
Marionetes



Hesitava... Se poderia prosseguir no mesmo caminho que até ali havia percorrido? Sim, daqui de fora, de onde estamos, podemos dizer que sim, mas há que se observar que isso não significa que a negativa não fosse sua única possibilidade. Estivera caminhando em círculos, círculos de raios cada vez maiores e traçados em diferentes planos, mas todos oriundos de um mesmo centro, de um mesmo impulso. Ao olhar para trás, percebeu que o que há de profundo e significativo em sua vida não havia mudado, apenas seguia se desdobrando, assumindo novas formas. No centro, o imutável. Até deparar-se com aquela porta jamais havia sentido as coisas de tal maneira. Não disse que não as havia pensado, apenas que não as havia sentido, e aquele sentir lhe revelou uma verdade. Era, agora, um homem de posse de sua verdade, da chave de seu destino. Quanto não foi preciso errar para que se tornasse capaz de discerni-la, ali, diante de seus olhos. Não a Verdade impessoal, Absoluta. Apenas a sua verdade, e era o que lhe bastava naquele momento pois estava só. De pé, defronte àquela porta, hesitava. Entrar era algo novo. Não seria como continuar ali fora, onde bem ou mal nunca havia sentido tamanha solidão. Tinha medo do que lhe sucederia. Mal podia ver, quando muito intuir, e sabia que, de algum modo, dali em diante, sua intuição, e não a razão como até então a conhecia, guiar-lhe-ia os passos. Perderia a razão, diriam. Isso mudaria tudo. Tornar-se-ia algo diferente, inimaginável. Ser e não-ser. Há os que insistem em afirmar que entrar ou não é uma questão de livre-arbítrio, mas ele sente como se não houvesse outra coisa a fazer. Com a chave em mãos, o livre-arbítrio é-lhe tão real quanto qualquer outra pessoa que estivesse consigo, e não há ninguém ali senão em suas lembranças, ilusões. Assim revelou-se para ele o livre-arbítrio: uma ilusão. Entrou com a coragem que lhe deu a convicção de que não poderia ter agido doutro modo, e a porta fechou-se atrás de si. Aquela que lhe servira de entrada jamais teria a mesma serventia para outrem. Era dele e apenas para ele se abriria. Jamais isto se repetiria. Compreendeu que na singularidade e irreversibilidade daquele acontecimento consistia sua solidão. Aquela era a sua realidade, o que o fazia ser o que era, e não havia outra senão para aqueles que estão de fora e não vivem outra vida que não as suas próprias, não a dele. Para ele, o livre-arbítrio ficou do lado de fora.

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Postado por Heberti Rodrigo
5/7/2016 às 14h36

 
A Falha


O Pecado Original e a Expulsão do Paraíso, de Michelangelo


Um erro insignificante não teria sido suficiente. Somente uma grave falha teria possibilitado que o conteúdo começasse a se tornar manifesto. Manifesto, passou a existir. Poderia continuar a não existir, e para isso bastaria que o envoltório que o continha não falhasse. No entanto, falhou. Dentre as inúmeras amostras daquele lote, não soube de outra que não correspondesse às expectativas. Foi a única que não pôde conter o que continha e, por isso mesmo, falhou. Tudo ocorreu por acaso. Por acaso falhou. Por acaso passou a existir. Acaso e fatalidade. Não tivesse falhado seguiria conforme e seria aprovado como os demais. Não conheceria a dor de ser o que é. Não sofreria com os inauditos desdobramentos de uma libertadora ruptura, nem teria sido desencadeado algo de irremediável: a dúvida sobre o próprio destino, a outra face da liberdade. Quando ainda não havia falhado, de acordo com a inscrição no rótulo e com o formato do envólucro que o continha, definia-se, reconhecia-se, sabia o que era e para o que servia; sabiam, também, os outros, quem ele era e para o que servia. Era um deles. Não se diferenciavam. Como eles, fora-lhe dada uma utilidade, e também como eles isso lhe bastava para viver. Vivia em conformidade, conformado. Não atinava para o que realmente havia em seu interior pois nunca lhe sucedera pensar em nada além do necessário para viver - só são felizes as pessoas cujo pensamento não vai além desse necessário. Após ter falhado, passou a ser atormentado pelo desejo de ir mais além: busca encontrar por si próprio uma interpretação para o que se passa consigo. Se não houvesse falhado, talvez jamais viesse a sentir necessidade de desvelar-se; não haveria a ruptura, e, não havendo, não estaria estabelecida a diferença, para além das aparências, entre ele e os outros. Apenas são felizes as pessoas que não sofreram semelhantes falhas, mas estas pessoas não existem - são impessoais. Ele falhou, e por ter falhado sabe que existe.

Contato: escritor.equilibrista@gmail.com

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Postado por Heberti Rodrigo
4/7/2016 às 08h18

 
A Neve


Modigliani


“Eu odeio todo mundo, sinto horror a mim mesma e não posso mais suportar a vida” foi o último registro de Anita em seu diário, momentos antes de deixar o Bistrô des Artistes, onde havia conseguido expor parte de sua obra. Naquela noite, como nas anteriores, pouco interesse despertou suas telas. Ao sair, não tinha um destino em mente. Foi sem dar por si que seus passos levaram-na àquela ruela estreita e sem saída. Estava tão fria e impassível quanto uma mulher que não acredita mais em sua própria beleza. No semblante de toda a gente que cruzava seu caminho, revia as mesmas feições pálidas e o mesmo olhar inexpressivo tantas vezes retratado em seus quadros. Não queria viver a mesma vida daquelas pessoas, mas não encontrava meios de se relacionar com a sua própria. Apenas quando pintava ela e a vida se conciliavam. Nessas ocasiões, sentia-se como que arremessada para além de seus conflitos, para além de si mesma. Expressos em tons e cores e estilo próprios, tais conflitos pareciam-lhe ter sido sobrepujados. Eram esses momentos, por assim dizer, seus instantes de serenidade, e força. Nos últimos tempos, no entanto, não conseguia pintar e, como não conseguia, tudo à sua volta foi se lhe afigurando cada vez mais intolerável, opressor e sem sentido. Ao longo do caminho, passou diante de incontáveis casas de pequenas janelas retangulares, resguardadas por grades, todas muito parecidas umas com as outras. Tão parecidas que nem as habituais conversas de fim de noite de seus moradores lhe permitiam diferenciar esta daquela. “É sempre a mesma coisa”, pensava, quando, ao fim da rua, a singularidade da arquitetura e o silêncio que emanava de uma edificação atraiu-a. O contraste entre esta e as casas pelas quais passara perturbou-a. Anita estava diante da catedral. Aquele silêncio prenhe de significação fascinou-a. Por alguns minutos, permaneceu no umbral, sensibilizada. Desde a morte da mãe não pisava numa igreja, e naquele momento algo em seu intimo a impelia a entrar. Ao cruzar o umbral, persignou-se, instintivamente. Surpreendeu-se ao notar que, conquanto algumas das estátuas dos santos refletissem confusamente a luz das velas e outras, muito altas, pareciam-lhe estranhamente irreais, não se sentia uma estranha ali: algo lhe sugeria uma doce familiaridade. Dentre os vultos ajoelhados à sua frente, ergueu-se uma religiosa que caminhou em sua direção e indicou-lhe um lugar para sentar. Cansada, Anita anuiu, e a religiosa sentou-se ao seu lado. Seu semblante sereno, perfeitamente sereno, não exprimia inquietação alguma. Entre seus dedos um terço reluzia como um fio de prata. Sua companhia suscitou em Anita a doce lembrança de sua mãe. Comovida, deixou-se tocar: deitou a cabeça no colo daquela mulher e sentiu suas mãos afagarem seus cabelos, de leve, afetuosamente. A seguir, sem que palavra alguma fosse pronunciada, confiou-lhe seu diário como se estivesse a entregar-lhe a própria vida e adormeceu.

Do lado de fora, recomeçara a nevar, e pouco a pouco a neve ia encobrindo os últimos passos de Anita.

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Postado por Heberti Rodrigo
2/7/2016 às 12h42

 
Longe demais

Antes de postar os três próximos textos, gostaria de introduzi-los com este trecho do livro A Negação da Morte, de Ernest Becker.


Há o tipo de homem que tem grande desprezo pela "imediação", que tenta cultivar sua interioridade, tenta fundamentar seu senso de valor pessoal em algo mais profundo e mais interior, criar uma distância entre si mesmo e o homem médio. Kiekegaard chama esse tipo de homem de "introvertido". É um homem um tanto mais preocupado com o que significa ser uma pessoa, ter individualidade e singularidade. Gosta da solidão e se retira periodicamente para refletir, talvez para nutrir idéias sobre o seu eu secreto, sobre o que este eu poderia ser. Este, em resumo, é o único problema verdadeiro da vida, a única preocupação humana que vale a pena: qual é o seu verdadeiro talento, seu dom secreto, sua autêntica vocação? De que maneira a pessoa é realmente ímpar, e como pode expressar essa singularidade, dedicá-la a algo que está além de si mesma? Como é que a pessoa pode tornar o seu ser interior privado, o grande mistério que ela sente e seu íntimo, suas emoções, seus anseios, e usá-los para viver mais distintamente, para enriquecer tanto a si mesmo quanto a humanidade com a qualidade característica de seu talento? Na adolescência, na maioria de nós lateja esse dilema, e o expressamos com palavras e pensamentos ou com sofrimentos e anseios sufocados. Mas, em geral, a vida nos suga atirando-nos em atividades padronizadas (...)trilhas com as quais nos conformamos, às quais nos moldamos para que possamos agradar aos outros, tornamo-nos aquilo que os outros esperam que sejamos. E em vez de trabalhar o nosso segredo interior, vamos aos poucos cobrindo-o e esquecendo-o, enquanto nos tornamos homens puramente exteriores, jogando com o sucesso padronizado, no qual caímos por acidente, por conexões familiares, por patriorismo reflexo, ou pelas simples necessidade de comer e pela ânsia de procriar.

Não estou dizendo que o "introvertido" de Kiekegaard mantém essa busca interior inteiramente viva e consciente, mas apenas que ela representa um pouco mais do que um problema vagamente consciente, do que o representado no caso do homem acomodado, tragado pelo ambiente. O introvertido de Kiekegaard sente-se um ser diferenciado do mundo, tem alguma coisa em si mesmo que o mundo não pode refletir, não pode, em sua imediação e superficialidade, apreciar; e por isso esse indivíduo se mantém um tanto afastado do mundo. Mas não demais, não inteiramente. Seria tão bom ser o eu que ele quer ser, realizar sua vocação, seu talento autêntico, mas isso é perigoso, poderia transtornar inteiramente o seu mundo. Ele é, afinal de contas, basicamente fraco, encontra-se numa posição conciliatória: não é um homem imediato, mas tampouco é um homem verdadeiro, muito embora aparente sê-lo.

Não pode ir "longe demais", porque na verdade ele não quer levar o problema de sua singularidade a qualquer confrontação total.

Extraído do livro A Negação da Morte, de Ernest Becker


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Postado por Heberti Rodrigo
1/7/2016 às 15h14

 
O Escritor e O Herói


O Mito de Sísifo


"As cruzes mais pesadas são internas, e os homens as fazem de tal maneira que, sustentados por um esqueleto, possam suportar o fardo de sua carne. Sob o sinal dessa cruz interna, obtém-se uma certa distância interior do desejo infantil de ser e ter tudo." Philip Rieff

Observando o fascínio que o Hulk exerce em meu filho, Theo, recordo-me de ter me sentido tão fascinado quanto ele quando era criança e vi do que os super-herois eram capazes. Lembro-me de me imaginar correndo tão rápido quanto o Flash, ou mesmo tentando erguer o que Hulk erguia. Acho que todo moleque fantasia ser como eles e, embora essa fantasia assuma outras formas ao longo da vida, ela não deixa de existir no coração de um homem adulto. Por isso, escrevo. Acho, também, que por isso gosto de esportes, em particular de musculação. Hoje meus heróis são outros, mas o desejo de me tornar um deles persiste, subsiste, resiste dentro de mim. Também sei que não se pode tudo, que mesmo para os heróis há limites, mas dentro desses limites pode-se realizar muitas coisas extraordinárias, e eu quero realizá-las antes de morrer. Descobri isso escrevendo. Talvez não se possa mudar ou salvar o mundo (e nem tenho essa ambição), mas pode-se muito com as palavras. Através da literatura um homem pode mudar sua forma de ver a si mesmo e ao mundo, e isso eu quero. Como diz a música abaixo, Crazy, de Gnarls Barkley, e há anos digo à Namorada, quando conseguir, quando esse desejo se realizar, vou morrer. Pode ser essa a minha loucura e, ainda segundo Crazy, "talvez eu seja louco. Talvez você seja louco." Qual é a sua loucura? Qual é a sua fantasia de herói?

"...My heroes had the heart to lose their lives out on the limb And all I remember is thinking, I want to be like them Ever since I was little, ever since I was little it looked like fun And it's no coincidence I've come And I can die when I'm done But maybe I'm crazy Maybe you're crazy..."

Trecho da música Crazy, Gnarls Barkley

https://www.youtube.com/watch?v=lAIvDj0PW94

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Postado por Heberti Rodrigo
13/6/2016 às 10h19

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