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Quinta-feira, 5/1/2017
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Artista de Rua - Stand by Me

Com muita freqüência encontro com um de meus vizinhos no portão de nosso prédio. Em muitos desses encontros ele carrega suas telas debaixo dos braços (as que têm as bicicletas como tema, em especial, me agradam muito) para tentar expô-las nas cafeterias e bares da cidade. Já conseguiu vender algumas. De uns tempos para cá comecei a pensar cada vez com mais assiduidade sobre a vantagem de ser pintor ou músico na hora de mostrar o próprio trabalho. O que um escritor faria nestas situações, além de colocar seus livros na calçada e tentar vendê-los sem que ninguém os lesse. Uma música, assim como um quadro gosta-se ou não quase que de imediato. Já a leitura exige mais tempo e um certo esforço, coisas raras de se encontrar nas pessoas hoje em dia. Logo um escritor dificilmente venderá os livros que expor na rua. Em se tratando de um escritor como eu que nem possui livros publicados, mas apenas textos isolados, a situação se complica.

Pensando nisso, resolvi aceitar a sugestão de alguns amigos, e dar iniciar a este blogue: O Equilibrista. Enquanto selecionava os primeiros textos, comecei a me comparar a um artista de rua. Se gostarem de algum texto que escrevi, na ausência de um chapéu para as moedinhas, ficarei grato se receber uma curtida ou, simplesmente, ser divulgado. Quem me aconselhou disse que eu já deveria ter feito isso há mais tempo. Sempre hesitei, mas agora que o blogue foi iniciado, ficarei na rua até conseguir atingir minha singela meta, que é tomar um cafezinho com meu trabalho. Então, quem passar e gostar, deixe sua moedinha. Quando atingir a meta, postarei uma foto de minha xícara.

Como diz a letra de Stand by Me, cheguei ao momento em que se precisa de alguém.

Sejam bem-vindos para ouvir a minha música e minhas telas.

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Postado por O Equilibrista
5/1/2017 às 18h23

 
O Brasil pede socorro



Não é de hoje que as autoridades brasileiras carecem de voltar as salas de aulas para refazer o estudo da ética, da moral e cívica e dos bons tempos da educação e dos estudantes patriotas.

Caberia as autoridades brasileiras fazerem um minucioso exame de vista para enxergarem melhor a má gestão dos bens públicos, e ainda fazerem um curso de dinamismo, de como se movimentarem melhor no campo dos serviços prestados aos brasileiros. Serviços estes pagos com os altos impostos que todos nós pagamos.

Quando o serviço público era realizado por servidores de carreira, percebia-se o esforço dos funcionários, para manter um bom serviço, um bom ambiente de trabalho, atender bem ao cidadão, seja qual fosse a área de atuação.

Por cinco anos trabalhei em saúde pública, na administração de um grande hospital do Rio de janeiro, com mais de dois mil servidores. Tínhamos problemas sim, mas não os que podemos observar hoje.

Com a implantação das “OS”, serviços terceirizados, percebemos não haver a preocupação pelo bem público, tão pouco com o atendimento da população em geral.

As ditas “OS”, servem tão somente para engordar as contas bancárias de empresários, na maioria parentes de políticos, quando não os próprios.

A educação segue pelo mesmo caminho, enquanto os técnicos e professores ficam sem receber seus salários, os burocratas da educação descansam em suas mansões, viajam em seus carrões entre outras tantas mordomias. O dinheiro da merenda escolar é muito bom para os bolsos deles.

Os senhores governadores, licitam empresas aéreas, para suas viagens em jatinhos e helicópteros. Enquanto os servidores, sequer tem o dinheiro da passagem de ônibus ou trens, para irem aos seus trabalhos, cumprirem os seus deveres. Mesmo sem a mínima condição de trabalho e contrapartida, pela autoridade regional, sem equipamentos e materiais necessários para levar a cabo suas tarefas.

Descaracterizaram o serviço público, mancharam a honra do servidor em todos os níveis de governos. Macularam com mentiras a imagem desses, taxando-os de inoperantes, marajás e outros mais.

A terceirização das funções, antes cabidas aos funcionários públicos é básico e notório, para encobrir a sangria do dinheiro público, através dessas organizações temerárias, hoje, falsas prestadoras de serviços públicos, que não levarão o Brasil a lugar nenhum, a não ser a derrocada total.

No final de governo, os prefeitos e seus secretários, largam as prefeituras ao Deus dará. Ruas imundas, inundadas de lixos, cofres vazios, ambientes sucateados, roubos de equipamentos, arquivos de controles apagados. Ninguém sabe, ninguém viu.

Pasmem, eles não são punidos. Mas isso não deveria ser crime? Onde estão as autoridades executivas, legislativas e judiciárias deste pais? Ninguém sabe, ninguém viu, simplesmente somem na hora da ação.

Como as autoridades não conseguem ver isso? Se plantam estáticos ou fingem não enxergar ou porque se beneficiam do esquema? Prefiro acreditar que eles não enxergam e que precisam de um bom exame com o oftalmologista ou um bom curso de dinamicidade em movimentos e observações. Ou seja, cuidado com o bem público.

Até quando amigos? Lembrem-se para não votarem nesses que assim agem. Do contrário vou pensar, quem não enxerga somos nós, que os colocamos para gerir o nosso patrimônio. Que somos nós que precisamos de exames e de nos movimentar melhor por aí para ver os mandos e desmandos do nosso país.

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Postado por Blog Feitosa dos Santos - Prosas & Poemas
5/1/2017 às 12h35

 
Sátiro e Ninfas, processo de criação (time-lapse)



Sátiro e Ninfas


pintura a óleo sobre tela, 50 x 70 cm. 2016

Vídeo que resume 3 meses de criação da pintura em 50 segundos.




João Werner em redes sociais:


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Postado por Blog de João Werner
5/1/2017 às 11h21

 
Duas Vidas


Matisse


A vida de uma pessoa não é o que lhe acontece, mas aquilo que recorda e a maneira como o recorda. Gabriel Garcia Marquez


Como um ritual, todas as manhãs descerrava as janelas antes de sentar-se à mesa de trabalho. Não a movia apenas a necessidade de inspirar o frescor do ar das montanhas que lhe infundia alento e serenidade, mas porque sentia igualmente vontade de iluminar. Agradava-lhe sobremodo ver a luz natural penetrar cada cômodo, como se apenas esta fosse capaz de reavivar a singularidade de cada detalhe. A luminosidade das lâmpadas parecia suscitar-lhe frieza, lançando sobre seus quadros, livros e plantas uma espécie de superficialidade monótona, como uma camada de poeira a lhes furtar o brilho de uma vida interior rica. Sim, para ela, os livros e os quadros e as plantas tinham uma vida própria, e rica. Para ela, riqueza era sentir-se viva. Sem a luz natural, tornar-se-iam pálidos e inexpressivos. Morreriam. Ela própria, nos dias em que não abria as janelas, tornava-se inexpressiva. Não era assim que gostava de se sentir, sobretudo quando encostava a porta do quarto e sentava-se à mesa com a intenção de escrever, logo após as crianças terem saído para a escola. Sozinha, apagava uma a uma das luzes que os meninos haviam deixado acesas para trás e descerrava cortinas e janelas banhando a si própria e tudo derredor na iridescente luz solar. Esses momentos solitários, vividos numa mudez contemplativa, eram os que precediam sua escrita. Desta maneira, religiosamente, viveu todas aquelas manhãs de março. Nos últimos dias, entretanto, o que mais lhe chamara a atenção foi o azul com tonalidades cada vez mais acinzentadas. Céu pouco brilhante, montanhas pardacentas – tudo agora de cor e brilho pouco celestiais. Não mais havia aquelas nuvens de todos os tipos e tamanhos que a alegrava mostrar para as crianças. Cada uma do seu jeito – aladas, alvas e macias, pequenos tufos de algodão doce, bolachas douradas quase duras, grandes montanhas brincalhonas, ilhotas purpúreas e melancólicas. Era como se todas tivessem dado lugar àquela incomensurável massa monótona e sonolenta. Era assim, observando a mudança na luminosidade dos dias que sabia que o outono chegara. Não que se ressentisse com a ausência do azul cerúleo. A verdade, a pura verdade, é que lhe propiciava uma felicidade sem limites essa luz acinzentada que empalidecia suas manhãs ao mesmo tempo em que sentia compensá-la tornando-a mais sensível para o mais íntimo de seu ser. Assim, durante todo o outono, ela se organizou para se recolher tão logo tivesse colocado as crianças para dormir. Queria levantar antes de todos e ficar sozinha tomando sua xícara de café nos minutos que antecedem a aurora. Nos dias em que não escrevia esta lhe era a hora das horas, pois antes de o sol vir a ser encoberto por um céu monótono e cinzento, ela sabia que durante um breve instante poderia sentir o seu efêmero, mas essencial, alento. Então, com uma felicidade que não é deste mundo diante de si, percebia o quanto se tem de esperar para viver semelhante momento. Brilhar como aquele sol outonal, com a sua luz cambiante a quebrantar um pouco da palidez de todos aqueles dias era algo que perseguia. Ser “efêmera mas intensamente vibrante”. Contemplando o sol, comparava-se a ele. Iluminar os pequenos detalhes de seu mundo interior, reavivá-los e compartilhá-los por meio de sua escrita era o que a fazia se sentir viva. Não podia viver apenas num mundo fora dela: no mundo de seus pais, no mundo de seus amigos ou mesmo no mundo de seus filhos. Precisava criar o seu próprio mundo, uma atmosfera em que pudesse respirar e recriar-se quando se sentisse destruída pelo próprio viver. Sem escrever, se perderia. Não seria capaz de recomeçar, de se reconciliar com os outros e doar-se a eles. Não lhe seria possível experimentar a vida duas vezes, e intensamente: no momento em que a vive e, em retrospectiva, ao rememorá-la na criação de seus personagens. Sufocaria numa rotina fria, artificial e sem brilho. Morreria. Sabe disso porque nos dias em que não escreve se sente como se lhe fosse indiferente o sol surgir ou não no horizonte.

Novo Blogue:http://oequilibristanacorda.blogspot.com.br/

Contato: escritor.equilibrista@gmail.com


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Postado por O Equilibrista
3/1/2017 às 22h55

 
FRIBURGO, MINHA TERRA DE ADOÇÃO

”Soverteu num rompante. A terra encrespou e tudo veio abaixo”. Ouvi essas palavras de um peão de obra, que havia trabalhado na construção de uma casa na encosta serrana, tal como ele estava contando a seus companheiros, na folga do almoço. Isso ocorreu muito antes da tragédia que se abateu sobre a cidade. Mas já não seria o prenúncio do que viria depois? Não sei, a natureza tem seus caprichos, é imprevisível.

“Quando tomei tento, tinha sumido dali”, o peão acrescentou, enquanto jogava no chão do botequim de beira-estrada um pouco de cachaça, dizendo que era pro santo. E foi tudo que vi e ouvi, pois já saía do bar onde fora comprar um copo d´água mineral. Tinha pressa de chegar até a casa de campo onde a família me esperava. Entrei no carro estacionado no acostamento e parti.

Esse cara, pensei enquanto dirigia, estava repetindo, como tantos outros, sem saber, o gesto irônico de Sócrates, o grande filósofo grego, ao fingir entornar uma porção de cicuta, que fora condenado a beber, dizendo ao carrasco e aos discípulos ali presentes, solidários e comovidos ao lado de seu mentor nos últimos instantes de sua vida, que seria uma reverência a algum deus — e não aos deuses do Olimpo cuja existência negava — para que o guiasse em sua peregrinação rumo ao desconhecido. Esse gesto simbólico, em seu despojamento e singeleza, tem mais de dois milênios e está descrito nos Diálogos de Platão, que foi seu discípulo e depois mestre de Aristóteles.

Friburgo sempre me pegou por duas coisas: a paisagem bem diversa da orla do mar em que vivo e gosto de viver e um certo sabor encontrável em seus pequenos achados, diminutas pepitas ocultas no ramerrão dos dias. Às vezes uma surpresa, como a coleção inteira das aventuras de Sherlock Holmes, em primeira edição, que arrematei, a preço vil, num velho bazar de variedades em Olaria, ou uma informação, em português castiço, prestada por um modesto quitandeiro sobre a incidência do sol à tarde em Mury: “o lado de cá é solarengo, o de lá é noruega”, disse-me ele. E era um nativo do lugar, tão brasileiro como eu.

Friburgo me pegava também pela linguagem por vezes tão surpreendente e peculiar.

Então, fiquei matutando: esse quitandeiro, modesto, de origem humilde, nunca deve ter folheado um clássico qualquer, mas como, perguntei-me, de onde saíra aquela frase perfeita, de um vernáculo irretocável, deslocada no tempo e no espaço? E a resposta me acudiu rápida e prontamente: da tradição. Sim, da velha e boa tradição oral. Pois é.

As cidades montanhesas, creio, são assim: ainda reservam raras riquezas somente acessíveis às mentes e aos corações.

Quanto ao ato corriqueiro de saudar o santo nos botecos da vida, sua perpetuação no tempo em fora é algo que dá o que pensar. E, diga-se, não é somente um costume local; tanto quanto eu saiba, é comum aos bebedores da quase totalidade dos botequins e biroscas de nossa terra. Seria culpa do inconsciente coletivo de Karl Jung, responsável também pelo cisma que o distanciou de Sigmund Freud? Ou quem sabe da memória atávica, da psicogenética... sei lá. De qualquer sorte, resta um vasto campo aberto a inumeráveis lucubrações de ordem metafísica, transcendental, esotérica, extrassensorial e outras teorizações que tais. Há vertentes para todos os gostos. Façam suas opções. Mas, na verdade, sinto dizê-lo, não é nada disso. Trata-se simplesmente de uma tradição, a boa e velha tradição consistente na passagem da memória dos acontecimentos fastos e nefastos de uma para outra geração. Este o exato significado da palavra tradição: entrega, passagem de alguma coisa de alguém para outrem. Infelizmente, costumes como esses, que forjaram o caráter dos povos e das nações, estão caindo em desuso, cedendo lugar ao advento de uma nova era. Sinal dos tempos que avançam irreversivelmente.

Lembro que, criança ainda, quando de minha primeira viagem a Friburgo, pelos fins dos anos 40, foi como se vivesse um sonho acordado. As cenas de outrora agora me acorrem, vívidas, em slow motion, quadro a quadro, como num fotograma de que sou eu mesmo o roteirista.

Estou abismado, na estação da Leopoldina Railway, no centro de Niterói (ou Nictheroy, como se escrevia antigamente), diante daquele monstro negro de ferro resfolegante, que despedia faíscas e grossos rolos de fumaça para todos os lados, no esforço esclerótico das caldeiras, pronto para partir, tracionando uma fileira incontável de vagões. Chamavam carinhosamente aquele colosso ameaçador de Maria Fumaça, mas para mim talvez fosse preferível chamá-lo de Moura Torta, que eu não sabia bem como era, mas assombrava, às vezes, minhas noites com terríveis pesadelos.

Meu pai, munido de guarda-pó, para proteger-se da fuligem que invadia o trem, mal saíamos da estação, abria o Correio da Manhã para ler as notícias do avanço das tropas aliadas, retomando as cidades europeias que a máquina de guerra nazista ia abandonando em fuga. Já nossa mãe se azafamava em retirar da bagagem os agasalhos que iríamos vestir na subida da serra envolta em brumas, porque a temperatura despencava vários graus à medida que a locomotiva galgava as grimpas, bufando, arfando e apitando como um dragão ensandecido.

Quando a curiosidade do menino vencia a batalha contra o medo, era possível vislumbrar, em meio à névoa, pelo retângulo da janela do vagão em movimento, a beleza rara da paisagem serrana em sua versão altaneira, matizada pelo pincel e as tintas do clima frio e do ar balsâmico dos eucaliptos, o verdor exuberante das ramagens, o multicor buliçoso dos matizes da flora silvestre, nascida ao deus-dará, a folhagem prateada de árvores que se alteavam sobre as demais, as frondes das araucárias abertas em leque, o delicado esparrame de flores das quaresmeiras, a algazarra das cores berrantes dos ipês tão perdulários de beleza, a gratuidade da natureza em estado de plenitude e, quase, de pureza.

Mas nem tudo eram flores e cores. Havia também aquele zumbido chato nos ouvidos, uma surdez repentina provocada pela altitude, que os mais precavidos procuravam amenizar mascando chicletes, como antídoto contra a descompressão. Vencida a serra, o trem parava na estação de Cachoeiras de Macacu, onde ainda hoje ecoa, no labirinto de meus ouvidos, a mistura de vozes dos garotos apregoando suas mercadorias: pastéis, morangos, caquis, frutas-de-conde, curau, pamonhas, sucos. Eu e meu irmão menor a tudo assistíamos de dentro do vagão, com água na boca, pois era um risco ingerir algo de que não se soubesse a procedência. Portanto, nem valia arriscar um pedido aos nossos pais. Fôramos educados à maneira dos severos usos e costumes oitocentistas, pois nosso pai nascera antes mesmo da Lei Áurea e educou-nos na rígida disciplina do século XIX.

Dessa primeira ida a Friburgo restaram uns poucos fragmentos de recordação, que, anos após, com a ajuda de meus irmãos mais velhos, pude, em parte, recuperar. Mas são detalhes de somenos, valem somente para uso interno.

Retornei muitas e muitas vezes, de lambreta e de carro, a Friburgo. Alcancei ainda os tempos do Hotel Glória, os carnavais antigos do Clube Xadrez, a Confeitaria Danúbio Azul, que era um ponto obrigatório da juventude dos Anos Dourados. Que tempos aqueles! Pelo retrovisor da memória, cada vez mais distante, são como imagens fragmentárias de um caleidoscópio quebrado...

Lembro da chuva das cinco, sempre pontual, cujos primeiros pingos, em algumas férias de verão passadas ali, em minha infância, eu recolhia na concha das mãos, para beber direto das fontes do céu a água benta (assim pensava em minhas fantasias de criança); lembro do fog que baixava sobre a cidade ao entardecer, encenando uma atmosfera gótica que evocava as estórias de mistério e assombro ao estilo de Jack, o estripador, e do Cão dos Baskerville.

A regência do tempo obedecia a outro compasso e a vida montanhesa guardava os ares de um pacato burgo alpestre.

Mas são lembranças antigas, de que não ficou comigo sequer um retrato. Melhor assim, pois o filtro da memória, em sua benfazeja generosidade, somente libera as evocações de que os peregrinos de outras épocas carecem como um nutriente necessário à preservação do que restou da autoestima a caminho da desintegração — e não da ilusão barata da eternidade falsa dos retratos.

A Friburgo de hoje, como, de resto, parece que tudo, nesse mundo velho sem porteira, sofre os efeitos do esmeril de Chronos, Senhor do Tempo, e de nós mesmos, coadjutores do processo erosivo de destruição do planeta.

Apesar de todos os pesares, se rastreados bem, Friburgo ainda guarda em seus refolhos alguns achados que os raros, tenho certeza, inconscientemente, sabem onde estão e, os que não sabem, com certa dose de engenho, mente e coração, ah, esses, seguramente, também, quando menos esperarem, encontrarão.

Mas a história não termina aí, a vida continua, e aquele rio-tempo ou tempo-rio a que se referia Heráclito de Éfeso continua a correr, irrefreável, reinventando-se, sempre e novamente. A Vida em si é uma obra em comum perpetuamente em aberto, na qual cada um deixa o seu contributo, na breve viagem de navegante nas águas vertiginosas do tempo que lhe couber.

Ayrton Pereira da Silva



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Postado por Impressões Digitais
3/1/2017 às 18h48

 
Nem sempre o sábio é o que parece

Quando me julguei um sábio,
Descobri: quase nada eu sabia.
Senti aprendendo a aprender,
Que a minha alma doía.
Redescobrir horizontes,
É renascer dia após dia.

Diz a vã filosofia:
É o mundo quem ensina,
Mas a alma é quem padece.
Quando se esquece a faxina,
Na soberba e na vaidade,
Que só a humildade elimina.


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Postado por Blog Feitosa dos Santos - Prosas & Poemas
3/1/2017 às 18h30

 
Um ano novo é para pessoas inovadoras

Assim mais um ano se vai! A esperança renova-se em todos os corações humanos, na expectativa de que dias melhores virão. Foi sempre assim e sempre será.

Amanhã será um novo dia, o ano que vem será melhor, ouço em cada esquina das ruas o clamor do povo em busca daquilo que é primordial para a raça humana, a felicidade.

Todos nós almejamos a felicidade. Todos nós queremos ser felizes. Há algum mal nisso? Claro que não, na medida do possível batalhamos para lograr essa dádiva.

Vamos deixar para trás tudo o que deu errado, até porque o pressuposto para o acerto é o erro, quem não erra é porque não faz, logo não acerta.

Pesando os nossos feitos, vamos descobrir que muito mais acertamos do que erramos, se erros ocorreram, foi na tentativa de acertos, então não há espaço para o lamento, para a mágoa e ainda menos para o recuo.

O novo ano repetirá os mesmos dias, as mesmas horas e segundos do ano velho, logo ele só será novo se nós os humanos, inovarmos em objetivos, comportamentos, igualdade, fraternidade e muito amor. Caso contrário, o novo ano será tão velho, quanto o que passou.

Concluindo, nada mudará se nós, as pessoas, não aprendermos que a mudança precisa ser realizada de dentro para fora, ou seja de nós mesmos para com os outros, para com o ambiente, para com a sociedade.

A mudança não é gratuita, pagamos caro por ela. É preciso esforço, coragem e muito trabalho para conquistarmos a mudança sempre tão decantada. Ela virar sim e depende exclusivamente de cada um de nós. É só fazer o que tem de ser feito.

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Postado por Blog Feitosa dos Santos - Prosas & Poemas
3/1/2017 às 16h46

 
Ano novo, casa nova.

Depois de quase duas décadas morando na mesma casa, eis que enfim nos mudamos para a casa nova.

Mudanças me causam o assombro de tudo que é novo e qualquer pensar ligeiro, remete à antiga morada.

Na casa antiga deixei meu pé de limão, boas lembranças e os gatos que não quiseram nos acompanhar.

As paredes que agora nos cercam são azuis e até o cheiro daqui é diferente, mas posso ver da sacada a cidade abaixo, pulsando no ritmo acelerado de sempre.

Dizem que para ser completo, todo homem precisa escrever um livro, ter filhos e plantar uma árvore.

Eu já escrevi quatro livros e tenho dois filhos, então, só me falta plantar a árvore.

A casa nova é de esquina, no cruzamento de duas ruas de pouco movimento, típico dos condomínios fechados, cortado pelo verde das árvores lá fora, o que me faz sentir falta da jabuticabeira no antigo quintal, que dá frutos adocicados, que eu tentava dividir com os passarinhos, mas que quase sempre acabava em brigas, porque os bichos bicavam as frutas maiores antes que os meus dedos a tocassem.

Passarinhos existem aos bocados por aqui, como o casal de coruja que fez casa cavoucando o barranco que fecha os muros.

As corujas também estão de casa nova.

Num relance percebo que preciso mudar a posição da última lâmpada, que dela desprende um feixe luminoso que apaga o arco-íris.

Um casal de tucanos corta o ar, seguidos de pássaros que desconheço, trazendo até a minha lembrança os tempos que as andorinhas tingiam de cinza o céu da cidade a todo entardecer.

Que fim levaram as andorinhas?

Ajeito meu corpo na almofada do sofá com todo cuidado, que o sofá me custou os olhos da cara.

Dois mil e dezessete há de ser melhor que o ano passado.

Os pássaros prosseguem atravessando o céu da nova casa, cortando o silêncio, que só não é completo porque é rota dos aviões, mas que na imaginação, faço deles desenhos de outros pássaros maiores, daqueles que não existem mais.

Ainda há pouco, percebi a distante luz dos olhos de um novo vizinho e fiz com as mãos um aceno breve, sem jeito, que selou talvez o início de uma nova amizade.

Algumas boas lembranças da casa velha me beliscam, provocando a dor da saudade:

Meus filhos nasceram na casa velha, grandes amigos moram nos arredores, o meu nariz reclama a falta do cheiro das telhas de barro e uma aflição toma conta de mim ao perceber que tudo era perto da antiga casa e que agora, até para comer, tenho que atravessar a cidade.

Detesto mudanças, mas entre um gole de café e outro, permito que a casa nova me preencha.

Por aqui espero passar uma velhice tranqüila, observando a tinta dos muros secar nos anos vindouros, durante os quais, solenemente permitirei o sopro do vento esticar a manga da minha camisa, até que a irresistível vontade me faça tocar a terra com as mãos e cumprir a última missão, aquela de plantar uma árvore, o pé de jaboticaba, que é para recordar sempre da casa antiga e ter o pretexto para quando as frutas ficarem maduras, brincar de brigar com os passarinhos.

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Postado por Blog de ANDRÉ LUIZ ALVEZ
2/1/2017 às 18h43

 
Narrando para sobreviver: As 1001 Noites, o filme

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Os últimos momentos do ano de 2016 nos reservaram ainda as estreias do segundo e terceiro volumes da trilogia As Mil e Uma Noites, O Desolado e O Encantado. Para quem não pôde assistir ao primeiro capítulo da obra, o Belas Artes, em São Paulo, exibe As Mil e Uma Noites Volume 1 – O Inquieto, para que possamos apreciar a sua integralidade.

A tríade foi concebida como um projeto único, contudo todas possuem unidade e coesão, não prejudicando quem, por ventura, testemunhar apenas uma ou outra. Se valendo da máxima atribuída a Tolstoi: “se queres ser universal, comece a falar da sua aldeia”<, o cineasta se apropria do histórico recente do seu país, entre agosto de 2013 e julho de 2014, momento em que Portugal, sub o jugo de um “programa de austeridade imposto pelo governo sem senso de justiça social” e pelos órgãos financeiros internacionais, que empobrece ‘quase’ – bom frisar esse quase – toda população portuguesa. Essa premissa traz um ar de atualidade com Zeitgeist, além do país lusitano, de outras nações como Espanha, Grécia, Brasil e etc.

Seu diretor, o português Miguel Gomes, do excepcional Tabu [2012], teve, portanto, não mais que três anos para realizar o seu projeto de recriar, à sua maneira, a história árabe, que em que pese tome para si o nome do preclaro livro, não se trata de uma adaptação cinematográfica, embora se inspire na estrutura fabular, como expresso no início do filme.

Apesar da unidade da obra, a primeira parte d’As 1001 Noites é a que possui carácter mais experimental. A maneira de Fellini, em 8 ¹/², a personagem interpretada por Gomes demonstra certo esgotamento e impossibilidade de realizar o seu ofício, em que o próprio diretor, a maneira do italiano, se aproveita da dificuldade de se realizar um filme como uma força criativa para ajudar na construção e estruturação do filme. Desse bloqueio de levar à tela o problema que seu país, seja financeiro ou ético, Gomes usa o artifício de convocar para o seu filme provavelmente a maior contadora de histórias que se tem notícia.

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Xerazade, como sabemos, personagem literária d’As Mil e Uma Noites, coletânea de histórias originadas principalmente no Oriente Médio, em que o rei Xariar, após descobrir um caso de fidelidade da esposa e matá-la, decide passar todas as noites com uma mulher diferente e ordenar que a matem na manhã seguinte, escapando assim de qualquer caso de infidelidade. Depois de certo tempo, Xerazade pede ao pai, o Vizir, para ser entregue como noiva ao rei, pois tinha um plano para frear a gana do rei em matar. Ela passa a noite contando uma história ao rei e suspendendo-a meticulosamente ao amanhecer, prometendo termina-la assim que anoitecer. O rei sedento por saber o final da história poupa-lhe a vida, esperando até o final do dia para saber o desfecho do que passou a noite ouvindo. Xerazade narra histórias como forma de subsistência, narra para não morrer.

Concebo a Xerazade como um espelhamento do diretor, ao menos do diretor em crise, aquele exposto no início do primeiro filme. O cineasta levou por volta dos mil dias para realizar os três filmes, desde o final de Tabu ao lançamento dos três filmes, assim como o empreendimento de Xerazade deu-se em período semelhante. Se o diretor sofre de bloqueio criativo no filme, ela foge do castelo e passa pelo mesmo processo agônico e de instabilidade, julgando-se incapaz de continuar narrando histórias, noite após noite, ao seu esposo – acompanhamos boa parte da sua aflição ao som da música Fala escrita por Luhli e João Ricardo, em performance do grupo Secos e Molhados.

A tese de que o cineasta passava por uma angústia criativa encontra consonância com Diário de Fabricaçãodo filme, disponibilizado à imprensa, que exprime, dia a dia, o processo de construção do filme, em que nem mesmo o diretor sabia o que viria a seguir e que, "encontraria" o tom da sua obra no seu desenvolvimento:

21 de novembro

Tento colocar-me no lugar de Sayombhu Mukdeeeprom, o director de fotografia tailandês queaceitou vir viver para Lisboa durante um ano para fazer este filme. Dissemos-lhe que tínhamos garantido durante doze meses uma câmara de 16mm e um jogo de objectivas anamórficas apesar de não fazermos a mínima ideia do que iríamos filmar[...]

25 de novembro

Mas que (...) andamos aqui a fazer? Sinto-me o Ed Wood! De manhã ensaiámos com 73 actores e distribuímos dildos [N.E: pênis de borracha] a todos (rodagem de Os Homens do Pau-Feito para a semana. Almoço a ver fotos de camelos. À tarde vejo vídeos com depoimentos de desempregados em Aveiro para o filme de fim do ano (O Banho dos Magníficos?): deixam-me prostrado. A produção está nervosa com a ideia de reservar hotéis para o ano novo e quer saber pormenores. Eu também mas ainda não há argumento. Peço que me construam uma baleia. Aconselho qualquer realizador a mandar construir uma baleia quando estiver em sarilhos [N.E: situação complicada][..].

25 de fevereiro

É preciso dizer alguma coisa ao Thomas Ordonneau, o produtor francês, que está à rasca porque tem de organizar a rodagem do episódio com Xerazade em Marselha. Vemos pelo google Earth o que há por lá. Mar e ilhas. Que seja! A Xerazade ganha uma casa (na verdade um Castelo): o Château d'If. O que vai ela fazer por lá?Não faço a mínima ideia.[...]


O procedimento de construção das histórias também é parecido. Se no livro os personagens que participam das histórias, voltam a diante em outras, no filme há casos como o de Catá que é a ligação dos capítulos “Floresta Quente” e "O Inebriante Canto dos Tentilhões”, bem como os de outros atores que ao ir e vir interpretando diversos personagens ao longo do longa-metragem trazem à obra uma fluidez narrativa interessante. Se esta inovação na articulação das histórias pode ser creditada à Xerazade, Gomes não se faz de rogado, de maneira que pôde aprofundar algumas escolhas narrativas ao longo dos mais de 380 minutos da trilogia.

Utiliza como recurso de narração a linguagem instantânea dos SMS, quebra a quarta parede ao utilizar personagens que interagem com a câmera – sobretudo com crianças interpretando adultos -; tudo isto acontece apenas no primeiro volume, somando-se a isso também a metalinguagem em relação a incapacidade do diretor. O segundo volume – O Desolado apesar de ser mais convencional do ponto de vista narrativo, possui a melhor história de toda obra, "Lágrimas da Juíza", que a partir do julgamento de um caso corriqueiro em que uma senhora se apodera de móveis de uma casa alugada a juíza se vê envolta em uma rede de crimes, sejam eles econômicos ou de outra natureza, machismo e culpa que permeia toda sociedade portuguesa e que a impedem de julgar de maneira justa.

O volume 2 é o mais resolvido, no sentido de estabelecer de maneira mais nítida a distância entre o real e o imaginado, neste escolhido como representante português para concorrer ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

Entenda-se convencional não como mesmice, neste diretor que possui um texto e imagens de elegância ímpar. Nas três histórias desse volume 2, o diretor expõe de maneira crítica o complexo momento social que se vivia ali, sem perder o humor e o sarcasmo. A primeira história intitulada “Crônica de Fuga de Simão ‘Sem Tripas “, em que mesmo decidindo praticamente narrar em off toda o conto realiza um grande cinema, ressaltado pelo surpreendente final da história do homem que a despeito dos crimes que cometeu, cativou toda população por enganar o governo.

A história seguinte é a já comentada acima, Lágrimas da Juíza, em que tendo novamente como mote o empobrecimento da população causado pelo programa de austeridade do governo português, os acusados são levados à Justiça – também instituição portuguesa – que por fim, se sente incapaz de julga-los. O interessante é que o tom de farsa dado ao julgamento está no texto e revelados por outros elementos como a roupa do Gênio – semelhante a uma fantasia carnavalesca – e uma vaca feita de papel que conversa com oliveiras.

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Aliás, um aspecto recorrente nos três filmes é a relação do homem com os animais, da comunicação do homem com o animal. Se permitindo a utilizar fartamente deste expediente, por ser adequado a sua estrutura fabular, Miguel Gomes, em O Inquieto nos revela a história de um galo que é levado à julgamento por cantar fora de hora. No desenrolar da história percebemos que o bicho estava tentando se comunicar, para indicar um delito, mas ninguém se interessou por decifrar o aviso. A vaca, do mesmo modo, nos ajuda a elucidar de alguma maneira, um crime. Enquanto no derradeiro episódio deste volume “Os Donos de Dixie” vemos a história de um cão que muda de dono diversas vezes, similarmente por conta do desarranjo financeiro do país.

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Penso que essa questão da [in]comunicabilidade com os animais, isto é, de tentar ouvir ou decifrá-los, liga as três partes, como sustenta o roteiro do volume final, O Encantado. O tom muda completamente, ainda que não perca totalmente o tom de fábula, o registro é claramente documental, em que se tem como foco o povo português simples. Além, de ser uma atitude transgressora em relação ao original, posto que a narrativa árabe retrata predominantemente nobres e enredos que em algum momento o elemento mágico se faz presente. O ato é insubmisso também, por exemplo, em “O Inebriante Conto dos Tentilhões”, em que homens numa espécie de comunidade secreta, tentam ouvir pássaros, cria-los, reproduzir seu canto de uma geração à outra e leva-los para competições. Transgressão, por que desafiam a autoridade, para fazer essas ações que são proibidas pelo governo, ‘apenas’ para ouvir os pássaros.

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Este episódio poderia ter se condensado um tanto mais, para preservar o ritmo geral da obra, no entanto, sem prejudicar a dramaticidade total da obra. Não que esse episódio destoe dos outros, muito pelo contrário, vê-se claramente uma habilidade do realizador português em entrar e sair das histórias, como no episódio "Floresta Quente", que inicia e termina entre o conto dos "Tentilhões...", assim como utiliza a música como contraponto aos momentos mais contemplativos do filme, como temos na música dos Secos e Molhados, bem como no clipe de Samba da Minha Terra, , dos Novos Baianos – que surge em um momento em que a comunidade árabe e os portugueses se queixavam de saudades da nossa terrinha – bem como das diversas versões da música Perfídia, bolero de Alberto Dominguez, levadas à tela em momentos diferentes. Esta música, diga-se de passagem, se adequa ao contexto do que vemos na tela. Além de revelar uma incompreensão de entendimento, semelhante à falta de comunicação ou dos sentimentos alheios serem inatingíveis, centraliza a mulher como detentora de poder de comunicar diretamente com Deus e com outros elementos, como o mar, que após a Xerazade ir se banhar, para conhecer o mundo, pois vivia enclausurada, enamorou-se do Peddleman, nativo, mas um parvo.

Por esse poder de comunicação, escolhas narrativas refinadas e acertadas para dar conta de um mundo pós-moderno em que não existem grandes narrativas totalizadoras que dão conta de explicar tudo que acontece em nossa volta e se aproximar de uma personagem mítica para abordar a história recente do seu país, Miguel Gomes se inscreve na categoria dos grandes contadores de histórias do cinema moderno.

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Trailer - Volume 2:

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Trailer - Volume 3:

Cotação:

AS MIL E UMA NOITES - VOLUME 1: O INQUIETO *****

AS MIL E UMA NOITES - VOLUME 2: O DESOLADO ****

AS MIL E UMA NOITES - VOLUME 3: O ENCANTADO ***

Direção: Miguel Gomes

E Feliz 2017 a todos!

Mauro Henrique Santos.



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Postado por Sobre as Artes, por Mauro Henrique
1/1/2017 às 22h52

 
Sombra (série: sonetos)

Caminhante da ferina memória
distante e irrefletida em ti: Quem sou?
Se de mim foges ante a tua sina,
mais te persigo os passos e a história.

Ao lavrar-te o pejo, lenta e mordaz,
a esgueirar-me pelas pedras e medos,
ao retirar-me de onde nunca estive,
da luz me desvencilho mais e mais.

Desfeito todo o meu corpo em meu passo:
Quem sou eu que de mim perdida estou
e sem chão ou alento me desfaço?

Pela vida em evasiva mudez,
se de mim te vais - te persigo mais.
Se me segues - te abandono outra vez.

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Postado por Blog da Mirian
31/12/2016 às 10h08

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