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Quarta-feira, 17/6/2015
A Caixa de Brinquedo - Der Baukasten
Raul Almeida

+ de 600 Acessos

Antonio Ferreira Gonçalves Leitão, um comerciante bem sucedido filho e neto de comerciantes de ferragens estava cansado da monotonia das férias e feriados. Era sempre a mesma coisa: Praia, mais praia e praia novamente.

Seguindo a própria rotina, foi o último a sair da loja, verificando se estava tudo em ordem dos fundos até a porta principal. E o negócio era bem amplo. Verificou os cadeados das portas de subir e descer e foi caminhando até ao estacionamento.

-Não! Não agüentava mais, seguiu pensando.

Abriu o carro de longe, com a chave eletrônica, o que sempre lhe causava discreto espanto. O carro piscava e apitava quando ele chegava perto. Que maravilha. Mas descer a serra estava fora de cogitação. No próximo feriado iria no sentido inverso. Faria o possível e o impossível para convencer sua esposa.
Chegou diante do portão da garagem, outra maravilha moderna, abriu, entrou e fechou com o comando à distância. Colocou o carro no lugar, respirou fundo e entrou pela porta lateral.

Vendera o apartamento do Guarujá por conta da parentada e dos amigos que se convidavam, transformando aquilo que deveria ser um lugar de descanso em alojamento. O pior: Os três filhos pós-adolescentes davam a impressão de gostarem da bagunça.

Quem pagava a conta era ele, Antonio Ferreira Gonçalves Leitão, comerciante de ferragens, e ponto final. O dia em que cada um pudesse escolher o que fazer para ocupar feriados ou dias vazios com seus próprios recursos, que o fizessem da maneira que lhes melhor aprouvesse. Queria ir para um hotel fazenda, entre a serra e o vale, com muito verde, algum silêncio, paisagem, boa comida e descanso. Estavam todos, definitivamente, convidados. Só que a família pensava diferente.

Abriu a geladeira da cozinha e sentiu passos vindo em sua direção: A esposa.

- Oi! Tudo bem? Abraçou-a e puxou assunto: Que tal inventarmos algo novo no feriado da semana que vem? Outra vez praia...

Você bem que poderia encontrar algo novo, senão já sabemos o que vem pela frente: Lentidão na estrada, chopinho, fila para almoçar no restaurante da moda, comprinhas de quinquilharias.

- Bem, se você estiver disposto a abrir a carteira, poderemos viajar, fazer um cruzeiro marítimo pelo Caribe. Quem sabe Miami? São poucos dias.

- Nem tanto ao mar, nem tanto a terra. Pensei em subir a serra.

- Aquela coisa sem graça, de ficar olhando um para a cara do outro na rua principal, procurando algum conhecido ou tomando banho de água mineral? Não estamos tão velhos e as crianças nem podem ouvir falar nessa história.

- Vi a propaganda de um hotel-fazenda, temático. Uma coisa interativa, teatral, com os empregados caracterizados à moda do século 19. Uma verdadeira cápsula do tempo. É como se fossemos convidados por uns dias à mansão de um barão do tempo do império.

- E qual é a graça?

- A programação inclui passeios, aventura, trilhas na serra, belíssimas flores, pássaros, cascatas, arvorismo, tirolesa. Quero mudar um pouco essa rotina de cadeirinha, protetor solar, cerveja de latinha, toalha cheia de areia. Estou cansado de ver as mesmas caras, as mesmas poses, as mesmas atitudes. Quero diversificar! Nas ultimas vezes só as gírias das crianças é que mudaram.

- Hum, não sei não. Pelo menos, a praia é diversão conhecida e garantida.

- Olha, trouxe um folheto para você ver. Talvez gostes. A cidadezinha parece interessante. Arquitetura colonial, antiquários, artesanato tradicional, confecções, moda, coisas do gênero. Vamos tentar?

- Vamos.

- Então você fala com a turma.

- Que foi que deu nele? Perguntou Cássio Murilo, o filho, quando Ernestina Maria das Graças Magalhães Leitão, bem cuidada ex-aluna de colégio de freiras, formada em sociologia pela PUC de São Paulo, freqüentadora de academia, praticante de Pillates e linda em seus 48 anos, comunicou o plano de viagem do pai.

- Hotel fazenda é coisa para velho. O que é que eu vou fazer lá? Ordenhar vacas? Tirar fotos com cavalinhos? Será que o pai não vê o nosso lado? O pessoal todo está na praia. As pessoas interessantes não vão para hotéis-fazenda. Que programa mais punk...Concluiu.

- E a gente como é que fica? Comentou Cecília Maria, a mais velha das filhas. Tomar chá com torradas servido por mucamas? Isso é programa de gente?

- Vocês estão esquecendo duas coisas: Primeiro é a vontade do pai, que sempre faz todas as nossas. Nunca disse não. Vendeu o apartamento na praia, pois não mais estávamos aproveitando e vocês sabem bem da historia. Segundo: Ele quer conhecer, quer ver como é. Nunca sugeriu nada. É a vez dele; de quem sempre paga a conta! E que contas.

Acabaram-se os argumentos contra e agora era começar a preparar a viagem.

O tema da conversa durante a sobremesa foi o que levar na bagagem.

III

O casarão colonial com uma dúzia de janelas podia ser avistado desde a estrada, lá no fundão perto do horizonte. Uma curva para lá, outra para cá, a construção sumia e aparecia, emoldurada pela serra coberta pela luz de um céu de poucas nuvens. Chegando mais perto, as cercas caiadas de branco, mostravam os limites da propriedade. A primeira impressão era de um cartão postal. Tirando a arquitetura, a paisagem poderia ser confundida com o verão de um cantão suíço.

- Bom dia. Temos reserva.

- Bom dia! Sejam bem-vindos! Conforme o vosso pedido, as acomodações estão aqui no casarão.

A jovem recepcionista com roupas de senhorinha, sorridente e gentil, falava e gesticulava em rapapés figurando um estilo colonial. Aguardou uns instantes enquanto Antonio preenchia as fichas e concluiu, indicando com um gesto a direção da sala de visitas.

- Convidamos todos a tomarem café.

- Esse pessoal recebia muita gente mesmo, comentou a filha do meio, Letícia, meneando os cabelos pintados de louro, e mostrando desdém com o recém-começado programa. Que sala de visitas enorme.

- É mesmo respondeu Antônio, sem esconder o entusiasmo e expectativa quanto ao programa.

- Bom dia!

Outra moça vestida de mucama cumprimentou reverenciando, enquanto mostrava a mesa redonda guarnecida por louças brancas sobre uma toalha rendada. Em seguida, um rapaz vestido com um libré, chegou empurrando um carrinho muito bem arranjado com pães, bolos, biscoitos caseiros, manteiga, mel, geléias coloridas, café e leite quente.

- Bom dia!

Novamente o cumprimento cordial e o serviço um pouco afetado, segundo comentou Ernestina, até então observadora muda e atenta.

As cinco mesas da sala de visitas, transformada num coffee-shop estilizado, estavam ocupadas por gente bonita, alegre e curiosa, muito diferente do que Cássio imaginara, ao saber que o programa do feriado prolongado fora mudado.

- Até que não está tão mal assim, murmurou entre os dentes, enquanto perscrutava todo o ambiente com olhar crítico e presunçoso.

- Então, o que estão achando? Perguntou Antonio, enquanto experimentava o pão ainda morno, com a manteiga produzida na fazenda.

- Vamos ver, não é? Por enquanto é tudo novidade. Esta gente fantasiada de novela das seis é um tanto bizarra, mas acho que vai dar para o gasto, respondeu Ronaldo.

- Eu estou gostando.

- Eu também. Responderam primeiro Letícia e depois Cecília, notando o desapontamento do pai com a resposta pouco gentil do irmão.

Estavam terminando, quando um outro funcionário vestido de fidalgo apareceu cumprimentando e iniciando uma descrição das facilidades e divertimentos que o hotel oferecia.

Entre passeios a cavalo, visita as instalações rurais, caminhadas nas trilhas na serra, o sarau das 20 horas e a ceia das 23, a piscina e o seu bar foram o que mais chamou a atenção da família.

Entreolharam-se cúmplices, sorriram discretamente e, sugeriram continuar o programa conhecendo aquela parte descrita pelo homem fantasiado de conde, como um verdadeiro jardim de delicias. Antonio, antevendo o lugar apenas como mais um palco para as caras e bocas praianas do qual pretendeu fugir, nada disse.

IV

Os três apartamentos da ala direita do casarão eram confortáveis e adaptados à modernidade, com isolamentos térmicos e acústicos, teto rebaixado, banheiro confortável, Tv., e todas facilidades de um hotel de qualidade. Definitivamente, não era um programa de roça tal como os três filhos haviam pensado.

Menos de uma hora após a chegada, as expectativas quanto ao aproveitamento do feriado prolongado tinham mudado substancialmente. Ninguém iria ordenhar vacas ou dar comida às galinhas. As pessoas avistadas não formavam um bando de velhinhos e velhinhas pré-caquéticas. Nesse aspecto Antonio estava redimido. O lugar e o programa tinham tudo para serem divertidos. Uma novidade a ser desfrutada.

Saíram dos apartamentos quase ao mesmo tempo, menos Antonio que ficou arrumando documentos e valores a colocar no pequeno cofre dentro do armário.

Ernestina, Cecília, Letícia e Cássio questionaram-se quanto à bagagem tão praiana, se o lugar sinalizava campo, montanha. O fato é que maiôs, sungas, chinelos bolsas e tudo que fosse necessário para uma temporada al mare foi colocado nas malas, juntamente com camisas de flanela, botas e roupas mais adequadas ao interior. Talvez por isso, o compartimento de carga da van ficara absolutamente entupido.

V

A porta do ultimo apartamento da mesma ala ocupada pela família estava entreaberta deixando ver uma escrivaninha antiga, igual ou quase, a que o avô de Antonio tinha ao fundo do escritório de sua primeira loja.

- A mesa do vovô! Exclamou em voz baixa, esticando o olhar lá para dentro.

A curiosidade o colocou no meio do cômodo. Havia de tudo. Uma vitrola de corda, duas bicicletas Philips empoeiradas e com pneus murchos, utensílios para a lida no campo, latões, ferros estranhos, canecas enormes, arreios.

Uma das estantes dividia pilhas de livros de registro com brinquedos antigos e o que mais chamou a sua atenção, a caixa de blocos de madeira para montar casas, com o rótulo escrito em alemão: Der Baukasten. Era igual a que herdara do pai que, por sua vez, ganhara do seu avô. Que coincidência! A escrivaninha e o brinquedo. Não resistiu a tentação e, no momento em que esticava os braços para abri-la e matar saudades, ouviu uma voz autoritária e forte cumprimentar:

- Bom dia Antonio! Traga para cá.

- Ande logo. Traga a caixa para cá, esta que você está querendo pegar.

O tremendo susto o trouxe de volta das recordações perdidas no fundo da memória.

- Vamos! O que está esperando? Traga a caixa para cá, não temos tempo a perder.

- Ah... Bom dia Sr. Não o vi chegar. Estava a caminho da piscina quando vi a porta aberta e aquele móvel igual ao do meu avô. Deu-me tanta saudade, sabe como é.

- Sei. Sei sim. Agora vamos. Deixe-me ajuda-lo com isso.

Antonio entregou a caixa de brinquedo ao desconhecido, observando atentamente os detalhes do seu trajar, desde a gravata até aos sapatos cuidadosamente lustrados.

- Mais uma personagem nessa historia, pensou em silêncio enquanto acompanhava os passos rápidos e firmes do estranho.

Atravessaram a recepção e encaminharam-se para as portas da entrada abertas em par, alcançando a varanda e a escada. Embaixo, o cocheiro e o palafreneiro aguardavam ao lado de uma carruagem fechada, com duas parelhas de cavalos. Antonio exultava com a escolha do programa. Parecia um parque temático americano: Todo mundo fantasiado, a decoração, o ambiente, a teatralidade.
Os sabores dos pães caseiros e da manteiga ainda permaneciam em sua boca. Pensava no que os outros estavam perdendo naquela pressa de ir para a piscina, passar protetor solar, fazer cara de paisagem, enfim repetir o programa de sempre, sem qualquer novidade.
- Suba! O criado ajuda. A voz de entonação imperativa, não conseguiu tirar o meio-sorriso de sua cara. Antonio, totalmente envolvido com as novidades, aboletou-se num dos assentos, enquanto o estranho sentava à sua frente, colocando a caixa e a bengala de castão de prata ao lado, apoiada no banco quase encostando ao seu pé. A porta foi fechada e o cocheiro pôs os cavalos em marcha. Olhava para fora dando conta não haver notado a fileira de casas de colonos ao lado da estradinha de terra de acesso ao casarão. Seria capaz de jurar, até aquele momento, que tudo era asfaltado e que... Bem, talvez não tivesse percebido, tão ansioso que estava em conhecer a Fazenda.
- Posso saber para onde vamos?
Perguntou sorridente, no exato momento em que o céu escurecia de pesadas nuvens, e o ruído dos trovões deslocava o ar sacudindo a carruagem. Não teve resposta. O estranho abaixou as cortinas das janelas, e olhando para ele ordenou:

- Segure-se!

Nem bem acabou a frase de alerta e um raio caiu bem na frente assustando os cavalos. Os gritos ininteligíveis do cocheiro misturavam-se ao barulho da tempestade.

Um susto enorme, forte cheiro de enxofre, a chuva entrando pelos vãos da janela da carruagem e Antonio começou achar a quantidade de efeitos especiais um pouco exagerada.

- Onde será que vai isso dar? Pensava desconfiado, recordando as atrações dos parques de Orlando. Aqui tudo estava muito mais sinistro.

A escuridão foi tomando o interior da carruagem e a sensação de que a luz evaporava e saia pelas frestas, começou a provocar desconforto.

- Senhor!

Senhor, estou passando mal. Quero sair. Pare, por favor.

Antonio procurava chamar a atenção do velho, falando e gesticulando nervoso e inseguro. Sentia a estrada descendo e continuava escutando o cocheiro gritar. Não se conteve mais e abriu a cortina da sua janela, constatando a escuridão do lado de fora sendo quebrada por relâmpagos, repleta de criaturas aladas fosforescentes, horríveis e ruidosas. Os morcegos descomunais com caudas em forma de seta e olhos chamejantes rodeavam a carruagem de forma ameaçadora. A tremedeira começou pelos pés e um sofrimento atroz, junto com arrepios, foi subindo e tomando todo o corpo.
Mal terminaram o breve diálogo e o balançar frenético parou, dando lugar a um rodar macio e calmo. Agora a janela aberta mostrava um nevoeiro denso e claro, que se esgarçava um pouco menos que lentamente. Logo a paisagem se recompôs exibindo um cenário verdejante.

O velho bateu duas vezes com o castão da bengala no teto da carruagem, paralisada imediatamente pelo cocheiro.
VI

- Ainda não acabou? Antonio não chegou a pronunciar o pensamento, respondido imediatamente pelo velho:

- Não. Não acabou. Estamos começando. Vamos descer.

- Estou satisfeito. È muito real. Perfeito. Não esperava tanto realismo. Estou surpreso com tanta tecnologia.

Desceram e o estranho voltou a tomar Antonio pelo braço, conduzindo-o em direção à porta do que parecia ser uma hospedaria do final do século 19.

- Vamos entrar.

- Sejam bem vindos! A mulher sorridente encaminhou-se na direção dos dois, falando e abrindo os braços numa saudação comum.

- Querem comer alguma coisa?

- Sim. Traga um pouco de vinho e o que tiver pronto, respondeu o velho sem consultar Antonio.

- Vamos descansar e seguir viagem.

- Eu não tenho fome. Vou almoçar lá no hotel com o meu pessoal.
- Então não coma. Vai perder uma chance de conhecer algo muito especial.

O velho encerrou a conversa, apontando onde ele deveria sentar-se. Uma cesta de frutas decorava a mesa indicada pela mulher que os recebera.

Olhando em volta Antonio percebeu a sala repleta de fisionomias conhecidas. Controlou o espanto, baixou os olhos, pensou um pouco e voltou a observar enorme angústia no semblante de cada uma delas. Teve a nítida impressão de que aquela aflição era provocada pela presença do velho.

Era isso! Havia ali uma coleção de lembranças ruins, de pessoas más, aproveitadoras, covardes, desonestas e traidoras. Todas tinham feito algo de mal a Antonio! Todas. Um calafrio percorreu seu corpo e os olhos do velho, firmes e frios, olhavam no fundo dos seus como se indagassem o que fazer com elas.

Permaneceu em silêncio, encarando as lembranças, desapontamentos, desilusões, prejuízos, dores e tristezas. Depois de instantes, conseguiu achar o ponto de resposta e disse:

- Obrigado, não vou comer. Não tenho fome.

- Então beba, tome um gole.

- Não, obrigado. Não quero. Talvez água. Só água.

- Traga uma jarra d'água, ordenou o velho à mulher que aguardava ao lado.

Mais uma coisa, surreal e absurda, acontecia: O rotulo da caixa de brinquedos colocada sobre a mesa brilhava durante a breve conversa.

O velho abriu a caixa retirando um manual de instruções, semelhante a um fino caderno ilustrado, e entregou a Antônio.

- Dê uma olhada. É igual ao que você conhece, não é?

- É sim. Nem me lembrava mais disto.

- Vamos construir um castelo com essas peças mais escuras. Começaremos pela masmorra que fica na base, depois o salão nobre e as torres.

- Castelo? Masmorra? Construir uma prisão? Nunca fiz isso. Aqui ensina a fazer casas, sobrados, igreja, estação de trem.

Antonio estava confuso. Por um momento esquecera o passeio, o hotel temático, a família esperando no bar da piscina, o feriado prolongado.

- Na masmorra vamos prender os maus, no salão vamos escutar os bons e nas torres colocar os sonhos. Foi a resposta do velho, ao começar a retirar da caixa os primeiros blocos, arrumando e formando as paredes da base do castelo. Em seguida voltou a provocar Antonio:

- Aqui está! O calabouço: Quem é que vamos colocar aí dentro? Por quem começaremos?

- Desculpe, mas já estou um pouco velho para ficar brincando de construir castelos com blocos de madeira. Está acontecendo algo que não consigo entender e não estou gostando...Não vou colocar nada nem ninguém ai dentro. Não tenho tempo para ficar pensando em quem é mau, bom, ou coisas assim. Antonio respondeu, mostrando surpresa e desagrado.

VII

O velho levantou-se, e deixando as peças e a caixa aberta sobre a mesa, caminhou para a porta.

- Venha! Chamou Antonio já em pé e ansioso por deixar o lugar.

A carruagem não estava mais por ali e apenas algumas pessoas andavam de um lado para o outro, como se aguardassem a chegada de algum visitante.

Antonio começou a sentir o peso dos olhares da pequena multidão que se formou do lado de fora. deu uma olhada para trás, para dentro da hospedaria, e não viu mais ninguém. A sala estava completamente deserta, a mulher retirava as sobras da refeição do velho e caixa havia desaparecido.

A menina bem no centro do povo aglomerado, mostrava pesar e tristeza. Seus olhos doces e angustiados foram empurrando a memória até perceber que era a namoradinha dos tempos da adolescência. Prometera casamento, jurara amor eterno e ela acreditara em tudo, sem nenhuma duvida, sem desconfiança, cheia de amor. Ele fora embora sem dar notícia. Lembrou-se das filhas em desesperado silêncio:

- Meu Deus!

Era a vez de deparar-se com suas iniqüidades, patifarias, malandragens, golpes, traições, falcatruas, irresponsabilidade, egoísmo, vaidade.


Ao lado da mocinha outras mulheres, de tempos e idades diferentes, olhavam para ele com o mesmo ar de desapontamento e frustração. Ex-empregados pareciam querer entender algo fora das quitações e indenizações. E ali estavam vizinhos, parentes, conhecidos, amigos tentando obter uma explicação, um gesto, uma justificativa para um estrago qualquer provocado por ele. Não cobravam, mas eram credores. Não reclamavam, mas tinham sido prejudicados. Não choravam, mas mostravam desencanto, desapontamento, frustração, dor.

Antonio tentou caminhar em direção ao grupo, mas não teve forças. As pernas estavam pesadas, os braços não se moviam. Tentou falar e nada. A boca continuava entreaberta, seca e muda. Não tinha nenhuma ação. Mal conseguia enxergar o que se passava à sua frente. Num estupor infernal, notou o velho saindo da multidão, com a caixa debaixo de um dos braços e a bengala na outra mão. Mesmo assim não conseguiu sair do transe. Seus olhos suplicavam clemência, perdão. Sua fisionomia transmitia vergonha e arrependimento. Seu corpo tremia de medo, pavor, fraqueza e infelicidade.

As pessoas começaram a afastar-se, uma a uma saindo do seu campo de visão, virando a cara e tomando um rumo qualquer. O velho assistia a tudo, impávido, insensível, indiferente. Alguém trouxera uma cadeira onde ele se sentou com a caixa por cima das pernas cruzadas. Assim ficou até que o ultimo individuo deu as costas e partiu. Antonio sentiu um enorme alivio.

O velho sorriu pela primeira vez e falou com a mesma firmeza de sempre:

- Vamos deixar o castelo para outro dia. As torres precisam ser mais bem planejadas.

Em seguida levantou-se e tomou Antonio pelo braço, tal como no começo, lá no corredor do hotel.

VIII

- Antonio o que houve? Maria Ernestina estava em pé no quarto, diante da cama onde ele parecia descansar da viagem.

Você veio aqui para dormir? Levanta daí, estamos te esperando e você aí deitado.

- Ah... Não sei. Recostei-me e... Sei lá. Peguei no sono. Não me lembro de nada. Faz muito tempo que estou dormindo?

- Uns dez minutos, talvez.

- Que coisa engraçada. Acho que sonhei. Lembrei da escrivaninha do vovô, aquela que está na garagem.

- Vamos, estão nos esperando.

Ao passar pela porta do ultimo apartamento da mesma ala, Antonio se deteve, tentou lembrar de algo, ficou ali por alguns instantes ao lado da mulher que nada entendia.

- Vamos! Não vais querer voltar e dormir de novo.

Uma empregada vestida de mucama passava, empurrando o carrinho de arrumadeira.

- Moça, por favor, o que é que tem nesse quarto?

- É o apartamento do Gerente.

- Ah, obrigado. Só curiosidade.

Do outro lado o velho, invisível por detrás de uma coluna, fazia anotações numa espécie de diário:
Antonio Gonçalves Ferreira Leitão - prorrogado por mais 10 anos.

Raul Almeida.


Postado por Raul Almeida
Em 17/6/2015 às 09h18


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