A massa não entende | Ricardo Gessner

busca | avançada
56607 visitas/dia
1,8 milhão/mês
Mais Recentes
>>> FAAP discute Semana de Arte Moderna de 22
>>> Toda Quinta retoma 1ª edição no Teatro Vivo com menção a Dominguinhos
>>> ENSINAR A FAZER - MARCENARIA
>>> O Peso do Pássaro Morto faz duas sessões online dias 30 e 31/10
>>> Exposição recupera a memória da ditadura brasileira
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Eleições na quinta série
>>> Mãos de veludo: Toda terça, de Carola Saavedra
>>> A ostra, o Algarve e o vento
>>> O abalo sísmico de Luiz Vilela
>>> A poesia com outras palavras, Ana Martins Marques
>>> Lourival, Dorival, assim como você e eu
>>> O idiota do rebanho, romance de José Carlos Reis
>>> LSD 3 - uma entrevista com Bento Araujo
>>> Errando por Nomadland
>>> É um brinquedo inofensivo...
Colunistas
Últimos Posts
>>> Michael Dell on Play Nice But Win
>>> A história de José Galló
>>> Discoteca Básica por Ricardo Alexandre
>>> Marc Andreessen em 1995
>>> Cris Correa, empreendedores e empreendedorismo
>>> Uma história do Mosaic
>>> Uma história da Chilli Beans
>>> Depeche Mode no Kazagastão
>>> Uma história da Sambatech
>>> Uma história da Petz
Últimos Posts
>>> Mundo Brasil
>>> Anônimos
>>> Eu tu eles
>>> Brasileira muda paisagens de Veneza com exposição
>>> Os inocentes do crepúsculo
>>> Inação
>>> Fuga em concerto
>>> Unindo retalhos
>>> Gente sem direção
>>> Além do ontem
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Meu primeiro computador pessoal
>>> Um homem de Oz
>>> 12 de Junho #digestivo10anos
>>> crônica - ou ensaio - à la hatoum
>>> Prenda-me se for capaz
>>> Sobre futebol e hinos nacionais
>>> Zeitgeist
>>> Capacidade de expressão X capacidade linguística
>>> Silêncio e grito
>>> Sejam Bem-Vindos
Mais Recentes
>>> Os fundamentos Históricos da Pedagogia Espírita de Pinheiro Martins pela Léon Denis (1967)
>>> Esculpindo o próprio destino de André Luiz Ruiz pela Ide (2008)
>>> Seara Vermelha de Jorge Amado pela Martins (1968)
>>> Espiritualismo cientifico a vida fora da matéria de Espiritualismo cientifico a vida fora da matéria pela Sem
>>> Manual de Direito dos Homossexuais de Cláudia Thomé Toni pela Srs (2008)
>>> Os Segredos da Grande Pirâmide de João Medeiros pela Ediouro (1986)
>>> Os Segredos da Grande Pirâmide de João Medeiros pela Ediouro (1986)
>>> Heróis de verdade de Roberto T. Shinyashiki pela Gente (2005)
>>> Almas gêmeas reecarnação de Luanda kaly pela Madras
>>> Espiritismo básico de Pedro Franco Barbosa pela Feb (1987)
>>> Em busca do mestre de Vinícius pela Feesp
>>> O Sistema de Pietro Ubaldi pela Fundapu (1984)
>>> Exilados por amor de Sandra Carneiro pela VivaLuz (2010)
>>> Os homens sempre voltam de Penélope parker pela L&Pm Editores (2008)
>>> A pessoa certa de Kathy Freston pela Fontanar (2010)
>>> Malungos na Escola Questões Sobre Culturas Afrodescendentes e Educação de Edmilson de Almeida Pereira pela Paulinas (2007)
>>> Desenvolvimento e crise no brasil 1930 1983 de Luiz carlos bresser pereira pela Brasiliense (1968)
>>> Observações sobre Édipo e observações sobre Antígona de Hölderkin & Beaufret pela Zahar (2008)
>>> Quem tem medo de envelhecer de Magdalena léa pela Record (1983)
>>> A coragem de mudar de José augusto de morais pela Record (1996)
>>> de Lynette Lucas pela Record (1989)
>>> Um só coração de Oneida terra pela Boa Nova (1999)
>>> Reflexões de Conversando com Deus de Neale Donald Walsch pela Ediouro (2006)
>>> A lei da atração para a vida o amor e a felicidade de Debbie frank pela Larousse (2008)
>>> Auto da barca do inferno de Gil Vicente pela Ateliê Editorial (2014)
BLOGS >>> Posts

Domingo, 2/12/2018
A massa não entende
Ricardo Gessner

+ de 1500 Acessos

Se a leitura de poesia, atualmente, é algo raro, o que dirá das suas análises? Mais do que raro, é tormentoso; e com razão. Especialistas pululam para lastimar a falta de interesse, ora acusando o capitalismo, ora o comunismo, ora a sociedade secreta dos reptilianos, pela responsabilidade. Entretanto, é importante não deixar fora de foco a própria produção artística, assim como o modo que seus estudiosos e críticos falam dessas obras. Como bem observa Rodrigo Gurgel, em “Reflexões no império dos filisteus” (Crítica, literatura e narratofobia):

“Se o espaço diminui cada vez mais – e o número de publicações dedicadas à literatura escasseia –, isso se deve não só a certas políticas editorias ou questões de ordem sociológica, mas também aos próprios críticos, que afastam os leitores ao incorporar a linguagem hermética da academia e evitar fazer julgamentos claros.

O crítico assinala o teor altamente especializado da crítica literária, que se tornou comum nos idos de 1970 em diante, e facilitou a fuga do público para outros setores, como a música pop ou produções mais digestivas. A crítica literária deixou de exercer sua função básica, criticar, julgar – escudada em discursos politicamente corretos –, para exibir um virtuosíssimo teórico agradável aos ouvidos áridos dos departamentos de teoria literária.

Contudo, a crítica literária responde a um outro fator, que é a especialização da própria arte. Como falei na abertura dessa crônica, a poesia – e as demais formas de arte – não estão na boca do público. Nesse sentido, o filósofo espanhol Ortega y Gasset, em “A desumanização da arte”, segue dessa premissa – de que a arte moderna é impopular e, mais do que isso, antipopular – dividindo o público entre os que a compreendem e os que não: “Não se trata de que a maioria do público não goste da arte moderna enquanto uma pequena parte, sim. O que acontece é que a maioria – a massa – não a compreende”. E isso ocorre porque a arte moderna passou por um processo de desumanização.

De acordo com o filósofo espanhol, a arte é uma forma de olhar para o mundo, como se olhássemos para uma paisagem através do vidro de uma janela. A paisagem é a própria realidade, que não se restringe à concretude, mas abrange o universo humano: pode representar a lida com sentimentos, valores, ações, representações do campo sagrado ou experiências místicas. O vidro, por sua vez, é o modo como o olhar é direcionado para percebê-la; é o análogo da técnica artística. Quanto mais límpido o vidro mais evidente é a paisagem, da mesma forma que por séculos os artistas empregaram técnicas que permitiam representar seus objetos com maior fidedignidade, ou torná-los mais claros.

Contudo, num determinado momento, a realidade deixou de ser o foco principal. “Não é que o pintor caminha torpemente em direção a realidade, mas vai contra ela”. Noutras palavras, a paisagem adquire uma importância menor, pois o vidro da janela – a técnica artística – tornou-se o fator preponderante. Isso foi apresentado como sendo a autonomia do campo artístico, que não depende mais de nenhuma realidade externa e pode sobreviver por si mesmo. O poeta francês Théophile Gautier sistematizou a proposta no conceito, hoje bastante conhecido, de “arte pela arte”. A poesia tornou-se “a álgebra superior das metáforas”, segundo Ortega y Gasset.

Por um lado, a conquista dessa autonomia foi compreendida como uma libertação da Arte, pois estava livre da realidade, livre de convenções, livre do universo humano e poderia voltar-se ao seu próprio. Por outro lado, isso acarretou numa excessiva atenção à técnica, culminando na “desumanização da arte”, da qual fala Ortega y Gasset e sua consequente incompreensão por parte do público. Isto é, como a arte tem a si mesma como referencial e faz isso por meio de técnicas profundamente especializadas, quem não possui esse domínio permanece excluído, ou tem mais dificuldade de compreensão.

Alguns filósofos marxistas celebraram essa característica interpretando-a como se fosse uma forma de resistência a uma sociedade capitalista, burguesa, “hostil à arte, pois não gera riqueza”. Contudo, há de se reconhecer que não apenas os opressores ficaram de fora, como também os oprimidos. “O que acontece é que a maioria – a massa – não a compreende”.

Os artistas se tornaram seus próprios críticos, muitos se dedicando à reflexão filosófica sobre o campo estético, criando sistemas teóricos para justificar suas obras – vide Paul Valery, na França – ou alguns poucos acólitos que passaram pelo processo de iniciação e aprenderam o vocabulário esotérico – como o próprio Paul Valery em relação a Stephane Mallarmé. A crítica tornou-se fechada em si mesma, munida de um arsenal teórico desconhecido por aquele que frui da Arte porque é, antes de tudo, humano:

“Ora, o leitor dos cadernos culturais não quer receber, a cada semana, pílulas estruturalistas ou conceitos derridianos. E não quer chegar ao ponto final do texto sem saber o que, exatamente, o articulista pensa. Quer e precisa de uma crítica que se disponha à tarefa de intermediar o diálogo entre a obra e ele, o leitor. Portanto, se a crítica deseja recuperar seu espaço, deve, antes de tudo, reaprender a respeitar o leitor” (Rodrigo Gurgel, “Reflexões no império dos filisteus”, p. 41)

Com isso, os artistas que esnobam tudo aquilo que “não é Arte”, mesmo que se apresentem como politicamente democráticos, são estilisticamente elitistas ao pressuporem um arsenal teórico para a fruição, além de facilitarem a fuga do público para outras instâncias.


Postado por Ricardo Gessner
Em 2/12/2018 às 17h31


Mais Ricardo Gessner
Mais Digestivo Blogs
Ative seu Blog no Digestivo Cultural!

* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Gauguin - Col. Gênios da Arte
Mathias de Abreu Lima Fº (trad.)
Girassol
(2007)



O Casamento da Viúva-negra
Manuel Filho
Prumo
(2010)



Toda Sua
Sylvia Day
Paralela
(2012)



Um Certo Capitão Rodrigo
Erico Veríssimo
Edibolso



Neurótica - Autores Judeus escrevem sobre sexo
Melvin Jules Bukiet (org.)
Imago
(2001)



Amor e Cuba-libre
Álvaro Cardoso Gomes
Ftd
(1999)



Deltora Quest 2 - a Ilha da Ilusão
Emily Rodda
Fundamento
(2006)



O homem do furo na mão
Ignácio de Loyola Brandão
Ática
(1987)



Comédia Em Tom Menor
Hans Keilson
Companhia das Letras
(2011)



Guinness World Records 2010 - o Livro da Década
Guinness Publishing
Ediouro
(2009)





busca | avançada
56607 visitas/dia
1,8 milhão/mês