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Quarta-feira, 18/12/2019
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Modesto Carone (1937-2019)

Hoje eu não poderia deixar de prestar meu tributo ao homem, através do qual, eu li Kafka.

Foi em 2001-2002, por influência de um Colunista do Digestivo, que tinha Kafka e James Joyce como seus autores de cabeceira.

E, obviamente, por influência do maravilhoso projeto gráfico de Hélio de Almeida, a partir de desenhos de Amilcar de Castro.

De Junho de 2001 a Junho de 2002, eu praticamente li todos os nove volumes de Kafka, pela Companhia das Letras, traduzidos por Modesto Carone.

Nunca vou esquecer das impressões que me causaram Carta ao Pai, Um Artista da Fome, Na Colônia Penal e, naturalmente, A Metamorfose.

O Processo achei mais famoso do que bom e O Castelo achei maçante. Ainda li América ou O Desaparecido, que Modesto Carone não traduziu. E, em inglês, comprei os Diários, as Cartas, o “Franz Kafka” de Max Brod e até um “Conversations with Kafka”, de Gustav Janouch.

Graças ao professor Carone, Kafka se tornou, para sempre, um dos meus heróis literários.

Cada volume que eu terminava, com um pequeno ensaio do tradutor, era uma revelação. E eu me recordo de ir comprando exemplar a exemplar, na Martins Fontes da rua Dr. Vila Nova.

Na época, eu fazia um curso de Dreamweaver no Senac, logo em frente. E me lembro de ler O Médico Rural, nas escadarias e nos bancos da escola.

O Dreamweaver eu utilizei para tornar o Digestivo um site dinâmico - criei o nosso próprio CMS, ou Content Management System (inconscientemente, porque eu nem sabia que o termo existia).

Foi a base para os próprios Colunistas publicarem seus textos, antes dos blogs (antes do Facebook). E, a partir do Dreamweaver, eu aprendi o ASP, ou Active Server Pages - que utilizamos até hoje, no Portal dos Livreiros e, inclusive, no Integrador do Portal.

Todo esse intervalo tecnológico para reafirmar que, enquanto eu sonhava com as páginas dinâmicas do Digestivo, eu lia Kafka, e minha visão de mundo se transformava.

Em 2002, ainda, visitei uma exposição da Praga de Kafka, em Nova York - e tenho o catálogo dela até hoje. Lembro que me impressionaram a caligrafia e os desenhos de Kafka (sim, ele desenhava).

Mais do que um dos maiores autores do século XX - junto com James Joyce e Marcel Proust -, considero Kafka um profeta do nosso tempo.

Se não fossem pelas traduçōes de Modesto Carone, eu jamais teria chegado a estas conclusões.

Até estudei Alemão, mas nunca me arrisquei a ler Kafka no original...

É uma pena que o professor Carone tenha nos deixado só alguns poucos aforismos, no volume dedicado a Kafka, pela Penguin Companhia.

Eu nutria esperanças de que ele nos traduzisse as cartas e os diários...

Se você ainda não leu, por favor leia Kafka. Nas traduções de Modesto Carone, é claro.

E vai entender o que um tradutor pode fazer por um autor. E por um leitor ;-)

Para ir além
"Kafka e as narrativas", The City of K. e "Jamais se ouve uma palavra gentil, só e sempre censuras".

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Postado por Julio Daio Bløg
18/12/2019 às 11h28

 
O pecado de torcer pelo país

Desde a Segunda Guerra Mundial, devido às suas desastrosas consequências, defender ou afirmar respeito pelo próprio país se tornou um gesto de gosto duvidoso. Declarar amor, então, é uma ofensa. Nacionalismo é um termo que passou a designar ideias de cunho fascista e xenofóbico, anulando formas sóbrias e saudáveis de respeito pelo próprio estado-Nação. O resultado é o desenvolvimento dessa sensibilidade anti-nacionalista, sob vestes multiculturalistas, que pretende representar uma postura tolerante, democrática, culturalmente aberta.

Tal conduta recebeu sua fundamentação teórica em âmbito acadêmico e se popularizou. Atualmente, pode ser vista em qualquer lugar, sendo que nas redes sociais proliferam mensagens, figuras e memes satirizando demonstrações de respeito ou preocupação pelo país, a exemplo da figura a seguir:



A figura emana ares de um manifesto provindo da insatisfação por algum governo. Sua mensagem, basicamente, é a seguinte: “Eu não votei no atual governo, por isso torço para que dê errado. Caso isso aconteça, caso o governo não dê certo, não culpe a mim, mas a si mesmo, que votou nele e, portanto, votou errado. Não transfira responsabilidade desse fracasso, que é sua, para mim ou para quem não quis esse governo”.

A mensagem se efetua pelo embate entre as duas frases: a primeira afirma o que não tem influência no desenvolvimento de um governo; a segunda, o que tem. Contudo, é a segunda que se destaca, não apenas pelo destaque visual, mas também pela impressão retórica ao ser lida: como é menor do que a anterior, seu efeito é de maior intensidade. Dessa forma, o sentido é centralizado na ação de “votar errado”, que, mais do que influenciar, é um fator determinante para o insucesso.

O enunciador parte da premissa que, se um governo não condiz com sua visão, não estão do mesmo lado e, assim, é viável torcer contra, como se fosse meu time rival. Se não torço para o Flamengo, que disputará a final do campeonato contra o meu time, é esperado que torcerei contra o Flamengo. Nesse caso, a vitória ou derrota de um ou outro time, de fato, tem relativa autonomia sobre a torcida, apesar de que seu apoio é relevante. Existe aí uma rivalidade saudável e condizente ao contexto em que se manifesta, mas projetar essa mesma postura, ou algo similar, na vida política é perigoso, se não infantil.

Um governo não é o mesmo que um time de futebol, apesar de muitos se comportarem em relação aos partidos políticos como se fossem. Em uma disputa de final de campeonato, os dois times ocupam lados opostos do campo, assim como a torcida, no estádio; como eu não pertenço à torcida do outro, torcer contra o meu time é um gesto de deslealdade.

A situação muda quando transpomos para o contexto político. Durante o período de campanha eleitoral, posso aderir a certa agenda política, já que ela condiz à minha visão. Dessa forma, torço para que o meu candidato vença as eleições e, assim, esse programa possa ser colocado em prática. Entretanto, independentemente do resultado final, o candidato vencedor será aquele que governará o país pelos próximos quatro anos e, a partir daí, estamos todos no mesmo barco. Se ele pertence a um espectro político diferente, torcer contra ele não é o mesmo que torcer contra um time adversário, pois o seu fracasso irá, de alguma forma, me atingir.

Sendo assim, se eu torço para que o governo dê errado, torço contra mim mesmo, assim como torço contra você, contra ele e ela; assumo uma postura deslocada, além de inadequada e infantil, pois deixo claro que sou incapaz de aceitar e conviver com as diferenças. Assumo, portanto, uma atitude antidemocrática. No fundo, parece birra de criança mimada, que chora porque o time perdeu, mas com a diferença de que não se trata de um time nem de um campeonato, mas da realidade e desenvolvimento do país. Há alguns que extrapolam na caturrice: lembro-me de um colega que postou em sua página de uma rede social a foto de uma mesa vazia, e justificou que se recusara a sentar-se nela, pois o seu número era o mesmo que o de um determinado partido político.

Torcer contra um governo revela a falta de comprometimento com o próprio país, pois, como falei, estamos todos no mesmo barco, sendo que a escolha do capitão foi feita democraticamente pelos marujos. Democracia é isso. Torcer contra simplesmente porque seu candidato não foi eleito é uma postura de quem não está preparado para conviver em uma democracia.

Além disso, a torcida contra um governo revela que houve uma dissociação da “primeira pessoa do plural”, esta, imprescindível para que haja uma democracia plena; nas palavras do filósofo inglês Roger Scruton:

"Onde quer que a experiência de nacionalidade seja fraca ou inexistente, a democracia não consegue criar raízes. Porque sem lealdade nacional a oposição se torna ameaça ao governo e as discordâncias políticas não criam pontos comuns[1]"

Por isso, quem torce contra a governança do próprio país poderia mudar-se para outro, cujo governo esteja de acordo com seu espectro político, mas que, revelando uma semelhança identitária, provavelmente não seria nem um pouco democrático.

Não se trata de justificar um nacionalismo degenerado em alguma ideologia totalitária, mas de retomar um antigo laço afetivo pelo estado-Nação, que foi perdido em grande parte devido as consequências desastrosas da Segunda Guerra Mundial, principalmente dos exageros do fascismo e nazismo. Enfatizo que não se trata de um nacionalismo ideológico, isto é, de um amor desenfreado pela pátria — afinal, isso não seria amor, mas paixão, fanatismo. Trata-se de recuperar um laço formado pelo que Michael Oakeshott chamou de associação civil. Oposta a uma associação empresarial, a associação civil se caracteriza pela ausência de uma direção a qual a sociedade deve seguir. Isso não deve ser confundido com o descaso ou falta de comprometimento, mas, sim, de uma conduta prudente, em que os problemas são discutidos segundo a própria realidade social do país, sem forçá-lo ao que pede sistemas abstratos e teses de engenharia social.

A associação civil pressupõe um laço de comprometimento entre os indivíduos de um estado-Nação. Isto é, um contrato social em que cada um tem consciência de seus direitos, assim como de seus deveres.

"Contratos são paradigmas de obrigações autoescolhidas — obrigações que não são impostas, ordenadas ou frutos de coerção [como acontece nas associações empresariais], mas livremente acordadas. Quando o direito é fundamentado em um contrato social, portanto a obediência à lei é simplesmente o outro lado da livre escolha. Liberdade e obediência são equivalentes[2]"

Ao contrário do que um rousseauniano defende, o contrato social não nasce da justificativa de uma imposição; não nasce de alguém que delimitou uma área de terra e disse, pela primeira vez, “isso me pertence”, e elaborou um código contratual para garantir sua posse; um contrato social não é o produto de aplicação racional. Trata-se do resultado de um longo período evolutivo, em que séculos de convivência formaram uma sensibilidade sobre o que seria mais adequado para os pertencentes ao grupo e, assim, protegê-los e garantir seus direitos. Esse entendimento sobre o contrato social pressupõe

"(…) uma relação de filiação como membro de uma sociedade. Teóricos do contrato social escrevem como se isso presumisse somente uma escolha racional livre na primeira pessoa do singular [“eu”]. De fato, pressupõe uma primeira pessoa do plural [“nós”] que já tinha aceito o ônus de pertencer à sociedade[3]"

Ou seja, trata-se de um enlace entre pessoas conscientes de pertencerem a uma mesma sociedade, conscientes de seus direitos e, por conseguinte, de deveres. Sem isso, não há democracia.

O resultado da associação civil é o que Scruton chama de oikophilia, isto é:

"(…) o amor pelo oikos, que significa não somente o lar, mas as pessoas nele contidas, e as comunidades que povoam o entorno que dotam esse lar de contornos permanentes e sorrisos duradouros. O oikos é o lugar que não é só meu, mas nosso[4]"

A palavra oikos, em grego, significa “lar”. Um lar é habitado por pessoas que compartilham um laço de familiaridade; unidos, procuram manter uma relação amistosa, assim como conservar um ambiente saudável, em que todos possam contar um com o outro e constituir um porto seguro. Costumes, comportamentos, regras de convivência, celebrações são itens compartilhados. Da mesma forma que a individualidade de cada membro é respeitada, também o é a família em sua totalidade, pois a convivência de um com o outro e o respeito mútuo permite que o oikos se torne um lugar aprazível.

O raciocínio é o mesmo quando pensamos em um estado-Nação. O país é como se fosse um oikos, um grande lar, em que seus habitantes formam uma família. Costumes, regras de convivência, celebrações, tradições, precisam ser respeitadas para que haja harmonia entre seus membros, assim como para que cada um tenha seus direitos assegurados. Modificações nessas estruturas podem ser feitas conforme necessário, desde que se mantenha o mais importante: o enlace familiar. O enlace familiar é o centro de tudo. Não é sem motivo que Roger Scruton tenha começado pela família para discutir o conservadorismo em alguns de seus livros, assim como não é à toa que Marx e Engels tenha atacado a família para considerar mais uma justificativa ao socialismo e o comunismo. Um lar desestruturado leva a uma desestruturação social. Autores como Dalrymple já demonstrou essa relação.

Dessa forma, alguém que torce para que o governo do próprio país dê errado não compartilha desse oikos e, portanto, é incapaz de viver e conviver em uma sociedade democrática, com outros indivíduos conscientes da existência de um nós ao qual pertence. Mais do que isso, não possui a sensibilidade de “pertencer a um lar comum”. A ausência disso resulta na transferência ou substituição do nós pelo eu de um líder, que, supostamente, guiaria o país em direção ao paraíso terrestre; ou melhor, para um admirável mundo novo. Um bom exemplo dessa sensibilidade é o culto em torno da figura do ex-presidente Luiz Ignácio Lula da Silva, em que militantes postam bordões aos borbotões em redes sociais, e que o próprio Lula tenha se declarado como uma “ideia” e, frequentemente, se apresente como um mártir; outro exemplo é a crescente projeção de Olavo de Carvalho, o conhecido “guru-da-direita” que, graças a seu bom comportamento, tem contribuído para formar uma direita sonora e truculenta, surda para seus escritos, mas atenta aos seus atos.

"Atribuímos credenciais para os que prometem guiar a sociedade ao longo do caminho que desejaram, e conferimos-lhe a autoridade para recrutar, dar ordens, organizar e punir os que restam entre nós, sem levar em consideração, por outro lado, de que maneira desejamos conduzir nossas vidas.[5]"

O resultado prático é alguma forma de tirania. Tirania que transparece nas entrelinhas daquela figura, que, explicitamente considera errado votar em um partido diferente e, implicitamente, é punitiva, pois torce contra o governo e, por conseguinte, torce para que seus compatriotas, sem perceber que faz parte dessa sociedade, fracassem.

Há um pressuposto falacioso, de que somente há duas maneiras de votar: uma certa e outra errada. Ao colocar a questão nesses termos, mais uma vez podemos vislumbrar a incapacidade do sujeito de conviver com quem pensa diferente. Por mais que o senso comum considere a política como um campo movido pelos interesses particulares, seja dos partidos ou dos candidatos, a figura é ainda mais redutora, pois configura todos os matizes partidários e ideológicos ao que se considera certo e errado: “o que compartilho é certo, o que não entra nesse espectro, errado”. Não há espaço para o diferente, nem para a convivência democrática.

"Oposição, discordância, livre manifestação e a solução conciliatória como regra, tudo isso pressupõe uma identidade comum. Tem de haver uma primeira pessoa do plural, um “nós”, se os muitos indivíduos existem para ficar juntos, aceitando as opiniões e os desejos dos demais, independentemente das divergências[6]."

Como discuti acima, a oikophilia é imprescindível: um senso familiar bem desenvolvido para que as diferenças sejam respeitadas e seus direitos, assegurados. Uma família saudável é composta por membros tolerantes, que respeitam a individualidade de cada uma para que o todo permaneça harmonioso. Mas

"Isso depende de costumes localizados e de uma rotina comum de tolerância[7]."

E “rotina de tolerância” é algo ausente em nossa cultura, principalmente na classe que mais se diz tolerante: a intelligentsia.

* Originalmente publicado na revista amálgama



______
NOTAS

[1] SCRUTON, Roger. Conservando as Nações. In: Uma filosofia política: argumentos para o conservadorismo. Trad.: Guilherme Ferreira Araújo, São Paulo: É Realizações, 2017, p. 11

[2] SCRUTON, Roger. Começando de casa. In: Como ser um conservador. Trad.: Bruno Garschagen, Rio de Janeiro: Record, 2017, p. 42

[3] Ibidem, p. 43

[4] Ibidem, p. 45

[5] Ibidem, p. 50

[6] SCRUTON, Roger. A verdade no nacionalismo. In: Como ser um conservador. Trad.: Bruno Garschagen, Rio de Janeiro: Record, 2017, p. 58

[7] Ibidem, p. 54

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Postado por Ricardo Gessner
16/12/2019 às 15h50

 
Homenagem a Rubens Jardim

No dia 3 de dezembro de 2019, o Sarau Gente de Palavra Paulistano homenageou Rubens Jardim, numa festa-surpresa organizada pelo poeta Cesar de Carvalho. O evento, realizado na Livraria Patuscada, contou com a participação musical do maestro Daniel Faria e com a colaboração do editor Eduardo Lacerda (Ed. Patuá), que reuniu numa antologia cerca de 70 poetas homenageando Rubens Jardim. Essa publicação inclui meu poema “Verso-fêmea”. Entanto, inspirada nas imagens de um poema de Rubens Jardim, recentemente publicado no Facebook, outro poema de minha autoria foi escrito e lido no dia do sarau: “Enigmas e cantares”, que ora apresento aos leitores e amigos.



Enigmas e cantares

“Mas como
como explicar este meu corpo...”
Rubens Jardim


Não me perguntarei pelo teu corpo.

Mas como
como não me perguntar
sobre teu sentimento
sem margem e sem limite
explodindo o fôlego do poema?

Não me perguntarei pelo teu corpo.

Mas como
como não me perguntar
pelo arremesso da palavra gerando
o alimento na panela?

Como não me perguntar pelas chamas
dançando na cozinha ao preparo do teu verso?

Como não me perguntar pelo enigma
da lâmpada iluminando o sol
na véspera do teu poema?


Tudo que me perguntei
sobrevive naquilo que desconheço:
enigma da paixão sonâmbula
despertando teus cantares.

Por isso,
não me perguntarei pelo teu corpo.

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Postado por Blog da Mirian
14/12/2019 às 09h37

 
Quanto às perdas V

Entender o impossível, não quero.
Não quero saber da ceifa instigando
o fio cego da morte. Nas lápides, não desejo
ler a medida do vazio que aguarda aquele
cujo nome eu não sei.

Afeita ao cotidiano, retomo
a colheita dos matizes.

Em meus lençóis os bordados esperam
o visitante, enquanto nas samambaias
o sol perfura rendas verdes
que me adornam a sala.

À mesa, disponho cadeiras
para o afeto. O que sei deste dia
resume-se no gosto do licor.

Das perdas, consolam-me
pequenos danos.

Foram-se os anéis.
Agoniza o tempo.
O instante resfolega.

Nada mais que isto.


(Do livro Nada mais que isto)

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Postado por Blog da Mirian
14/12/2019 às 09h04

 
Eu me fiz assim

Na nossa trajetória, cansamos de tanto dar explicações disso ou daquilo para os outros. Deixamos de ser o que realmente devíamos ser, para corroborar com as opiniões alheias. O engraçado é que passamos a fazer isso no automático. Sem perceber entramos nesse processo de escravização do nosso “eu”, em detrimento da nossa liberdade comportamental e emocional.

Até compreender isso, muitos anos de opressão psíquica se passaram, para eu despertar desse pesadelo, que demasiadamente me afligiu. Pude perceber que a educação opressiva e de submissão, foi sem dúvida, um dos fatores que contribuíram para a excessiva preocupação de agradar ao outro, antes de agradar a mim mesmo.

O meu conceito de liberdade era: primeiro você e depois eu. Tive que suprimir opiniões, reter palavras, me afastar, para dar direito e voz ao outro. Quantas vezes calei a verdade para não magoar alguém, embora me corroendo por dentro num desgaste emocional sem tamanho.

Lá se foram tanto tempo que não me atrevo a mensurar. O bom em tudo isso é que nada passou despercebido. Cedo ou tarde a gente aprende. E eu aprendi. Tornei-me um eterno e esforçado aprendiz da vida, até porque não existe um tempo para o aprendizado.

É logico que não deixei de ser educado para com os outros, mas aprendi como compartilhar ou dividir o palco onde ocorrem os atos e fatos da vida. Aprendi que as conquistas só acontecem, quando as buscamos com afinco, decisões e coragem. Aprendi também que a verdadeira liberdade é uma via de mão dupla, onde os direitos e deveres são igualitários. Não existe o primeiro eu e depois você.

Não quero o que não me pertence, mas também não abro mão das minhas conquistas. Se erro, conserto imediatamente, para não comprometer as etapas seguintes.

Não quero com isso, apontar caminho para ninguém, cada um precisa seguir o seu próprio rumo, errando e acertando, não importa, o importante é ser você mesmo todo o tempo, o tempo todo.

No futuro se eu for lembrado, gostaria de ser por tudo o que eu não deixei de fazer. Mas o tudo que eu fiz, foi por terem me permitido fazer. Agradeço a todos, amigos, família e a Deus, o gestor dos caminhos pelos quais trilhei, sem o seu aval, jamais teria alcançado sequer o primeiro patamar da íngreme escada que nos leva a algum lugar mais alto.

Façam o que puderem fazer sem olhar para trás. Mais tarde contabilizem os feitos sem censura ou arrependimento. Digam em bom som, me permitiram fazer e eu fiz, graças a Deus.

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Postado por Blog Feitosa dos Santos - Prosas & Poemas
12/12/2019 às 17h53

 
Juliette Binoche à brasileira

A Imovison, responsável por trazer grandes filmes que estão fora do circuito hollywoodiano para os nossos cinemas, completou 30 anos. Para a comemoração, a distribuidora trouxe ninguém menos que Juliette Binoche, uma das maiores atrizes francesas da atualidade. A festa aconteceu no cinema Reserva Cultural, em Niterói (RJ), no dia 29. Aos 55 anos, Binoche traz um currículo de sucesso, tendo recebido o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante e Melhor Atriz em Berlim por seu papel em O Paciente Inglês (1996), além do Prêmio César (França) e Copa Volpi (Veneza) por seu trabalho em A Liberdade é Azul (1994). Com sua vasta experiência no audiovisual, a atriz falou sobre sua carreira, seus antecedentes brasileiros e a situação política no Brasil.

No caso de seus familiares, a atriz diz que sua família veio para o Brasil no século 19, onde um dos membros teve filhos com uma escrava, que foram levados para a França. Binoche lamentou o caso, dizendo que "nenhuma pessoa deveria ser escravizada. Nenhuma pessoa deveria ser usada. Se pudesse, pediria perdão a cada um desses familiares". E é por isso que a atriz gostaria de conhecer mais o país. Por isso ela aproveitou a estadia, mesmo curta, para comer uma feijoada caprichada e sambar na quadra da mangueira, e como se não fosse o suficiente, arriscou um jogo de capoeira.

Mas não deixou de comentar sobre situação política e seu desgosto com o nosso atual presidente, Jair Bolsonaro. "Para mim, um presidente que vem do universo militar já é uma coisa esquisita. Militares e políticos tão próximos... Isso me remete ao Trump". Ainda comentou sobre os casos de racismo, cometido por ele, "Ele [Bolsonaro] tem sido intolerante ao falar sobre mulheres, negros e índios. Você imagina que, supostamente, um presidente deveria representar todo mundo em seu país."

Esse ano, o filme Vidas Duplas foi exibido na retrospectiva de Olivier Assayas, na 43° Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Agora Juliette Binoche já tem mais um trabalho concluído. The Truth (A Verdade, tradução livre), do diretor japonês Hirokazu Kore-eda, onde a atriz é filha de ninguém menos que Catherine Deneuve, outra grande atriz do cinema Francês. "Eu a assistia a seus filmes desde criança. Eu estou vivendo um belo conto de fadas atuando com essa atriz!", Afirmou Binoche. Ela também falou sobre seu trabalho com Kore-eda, "[Kore-eda] me remete ao Anton Tchékhov (dramaturgo e escritor russo, 1860—1904). Ele vê as pessoas tanto pelo lado sombrio quanto pelas suas partes iluminadas. Proporciona para cada um diferentes ângulos do que podemos ser".

Ao que parece, Binoche ainda está trabalhando em dois outros projetos. A nós, resta esperar pelo lançamento de The Truth, que promete ser uma grande produção, já que reúne um diretor e duas atrizes consagradas, e quem sabe mais um visita de Juliette Binoche em terras tupiniquins, o lugar onde ela aprendeu a sambar e jogar capoeira.

A entrevista foi dada a William Mansque, do Zero Hora.

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Postado por A Lanterna Mágica
6/12/2019 às 08h10

 
E daí?

Cada um toma o seu caminho,
Isso é um fato inconteste,
Aonde vais, aonde eu vou,
Ninguém sabe, nada nos foi dito,
Peregrinamos mundo afora,
Vamos desvendando o veredito.

Há quem ache isso bonito,
Eu sequer tenho afeição,
É o pensamento mais cansativo,
Quem sou, aonde vou... e daí?
Somos carne da mesma carne,
Não adianta querer fugir.

Por vezes me pego a sorrir.
Eu caminho, caminhamos nós,
Tu te cansas, eu também canso,
O que há de diferente nas pessoas?
Tu as vestes ou as despes,
De acordo com a tua mente atoa.

Rio, 02/12/2019

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Postado por Blog Feitosa dos Santos - Prosas & Poemas
2/12/2019 às 17h37

 
Escritor

Um dia, entrando na rua Erê, de volta da escola, lembrei que minha irmã tinha falado que o Cyro dos Anjos morava ali e que sempre passava em frente de nossa casa.

Já era famoso, fiquei curioso, com vontade de conhecer, conhecer não, conversar com ele. Conversar sobre o quê? Não teria assunto. Morria de vergonha de tudo.Mas eu não estava cansado de saber que um escritor, um artista não eram igual a todo mundo? Não estava acostumado a ver os jogadores de futebol, famosos como o Pampolini, que eu via de perto, no Campo do Cruzeiro, toda hora dando entrevista, aparecendo nos jornais? Os artistas que via na Rádio Inconfidência, quando Lurdinha, nossa vizinha, doida pra ser cantora, levava a gente aos ensaios, e com isso eu acabava ficando perto dos artistas, tudo de fora, o Alcides Gerardi, o Anísio Silva e até o Gregório Barrios de uma vez que veio cantar em Belo Horizonte? Não tinha o Guignard, famoso no Brasil inteiro que dava aula pro pessoal debaixo das árvores no Parque Municipal? E o boêmio do Rômulo Paes, popular na cidade, todo ano com uma música pro carnaval , sempre no Café Palhares tomando umas?

O escritor é outra história.

Você vê um cara cantando, uma bailarina, um ator de frente pro público. Faz sentido um escritor puxar uma folha de papel e começar a escrever na sua frente?

Um outro artista — o regente de orquestra. De costas para a plateia sabe que lá em baixo pode ter alguém que naquela hora está pensando na pessoa que ama, ou outro que está com o coração apertado, que não aguenta mais porque nunca amou.

Nunca vou querer ser escritor. Escrevo alguma coisa de vez em quando, uns poemas pra passar o tempo, tranco na gaveta pra ninguém ver. Ficar horas e horas na frente de um papel, numa solidão danada?

Eu nem sei por que escrevi isso. Tudo por causa do Cyro dos Anjos, sempre solitário. Taí, O Solitário da Rua Erê, pensei, até dá título de romance. Não sei nada da vida dele, nunca li uma linha do que escreveu. Passa sempre na nossa rua, com um livro debaixo do braço — talvez até minhas irmãs suspirem.

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Postado por Blog de Anchieta Rocha
2/12/2019 às 10h53

 
Diz o Homem ao homem

Com o que tirastes do outro, conseguistes ficar rico? Não! Pois, em verdade te digo, nada do que subtrairdes do teu irmão, sobrará a teu favor. Apenas e tão somente, com a força dos teus braços e o suor do teu rosto, conseguirás amontoar fortuna para ti e para os teus. Pois, tudo o que vem fácil, com mais facilidade sairá de tuas mãos.

Só um hipócrita se regozijará de atos espúrios antes que o dia termine. Se o que tens não te cabe por mérito próprio, ouso dizer-te a tua paga acontecerá, mesmo antes que o sol perca a luz e as trevas te envolvam nos mais profundos dos subterfúgios: a inveja, a ganância e a mentira te farão rastejar por caminhos errantes a Deus.

Rio, 03/11/2019

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Postado por Blog Feitosa dos Santos - Prosas & Poemas
1/12/2019 às 16h08

 
Assim é o rei

Todos se foram,
O acalanto silenciou.
A lua fulgura por entre as folhas,
Résteas salteadas foi o que restou,
Nesse caminho que não leva a nada,
Essa imagem mal falada,
É tudo o que você deixou.

Já que fostes,
Também eu, vou indo.
O sombrio da noite baixa a tumba
E o resplendente véu desnuda o rei.
Vou indo sem a pressa de chegar,
Parando aqui e em qualquer lugar,
Não me importo se perdi ou se ganhei.

Rio, 14/11/2019

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Postado por Blog Feitosa dos Santos - Prosas & Poemas
1/12/2019 às 15h52

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